A rua debaixo era mais que rua, era o nosso estádio, nosso palco e, de certa forma, nossa escola de vida. O chão quente, o pó vermelho grudando no suor, os chinelos servindo de trave e a bola que nunca descansava. Cada fim de tarde parecia igual, mas nenhum foi repetido. Um deles, sem sabermos, foi o último.
Lembro de Guegué, sempre chegando enrolado na toalha de mesa. Ríamos, mas sabíamos o motivo: a mãe, na tentativa de segurar o menino em casa, deixava-o nu enquanto trabalhava. E lá estava ele, driblando o mundo com o pano arrastando pelo chão, até largar a toalha e se juntar à bagunça.
Eu tinha minhas artimanhas também. Mandado para comprar pão, sumia por duas horas. O pão ficava esquecido na esquina, enquanto eu corria atrás da bola. Para despistar bronca, escondia uma muda de roupa na casa de dona Daluz, mãe de Roger, Walex, Wescley e Wendel. Jogava, suava, trocava de roupa e voltava para casa como se nada tivesse acontecido.
Genilson era o menino do me dá aqui. Pedia tudo: a bola, a bicicleta, a vez. Era parte do jogo, parte da nossa paciência treinada na marra. Breu e os irmãos eram só molecagem, inventavam confusão, davam risada alta, transformavam cada detalhe em motivo para caçoar.
E havia Marcos e Diogo, os irmãos descolados. Tocavam violão na porta de casa, malhavam improvisando pesos, e eram sempre a referência de estilo e atitude. Quando o futebol parava, era para a música começar. Reuníamo-nos ali, desafinados e felizes, como se o mundo inteiro coubesse em três acordes e algumas risadas.
Anderson, com sua calma firme, muitas vezes no gol, e Guegué, com sua gargalhada solta, já não voltaram. O mar os levou cedo, numa daquelas viradas da vida que a gente nunca entende. Mas mesmo isso, mesmo a dor da falta, foi apenas um episódio dentro do fluxo que seguiu.
Porque o que realmente mudou não foi apenas a ausência deles, mas o tempo. De repente, as idas à rua debaixo deram lugar ao estudo, à faculdade, ao trabalho, aos namoros, às obrigações. O cotidiano, sem nos pedir licença, virou outro. Um dia, simplesmente, a bola parou de rolar. O pão deixou de ser desculpa. O violão foi guardado. E ninguém disse: foi a última vez.
É isso que o tempo faz: vai desmontando o cenário, peça por peça, até que a gente se dá conta de que não há mais partida marcada.
Hoje, se fecho os olhos, ainda vejo a toalha de mesa de Guegué esvoaçando, ouço as cordas do violão de Marcos e Diogo, sinto o pó da rua grudando no suor. O jogo não acabou: ele apenas ficou suspenso na memória, eterno naquilo que nunca mais será vivido.
No fundo, talvez seja assim: cada instante é também uma despedida disfarçada. E só a lembrança, teimosa, insiste em manter aceso o que fomos, meninos correndo atrás de uma bola na rua debaixo, sem imaginar que a vida, sorrateira, já preparava o apito final.
Nenhum comentário:
Postar um comentário