terça-feira, 23 de setembro de 2025

Inclinação

 Do vigésimo andar, ele via a ponte todos os dias. Era quase um quadro permanente, moldurado pela janela da sala: o rio lento, os carros apressados, o arco de concreto atravessando o horizonte. No começo, a ponte era apenas parte do cenário – tão comum quanto o café da manhã ou o som dos elevadores. Mas, com o tempo, seus olhos treinados pelo hábito começaram a notar algo diferente.

Havia uma leveza torta ali. Um desnível quase imperceptível, um centímetro a mais de sombra no lado esquerdo. Intrigado, passou a observar com mais atenção. Marcava, a cada manhã, o ângulo imaginário que separava o equilíbrio da ruína. Comprou uma trena, um nível, fez cálculos em folhas soltas. E, mês a mês, confirmava: a ponte inclinava-se.

Preocupado, escreveu cartas para o jornal, mandou e-mails para a prefeitura, telefonou para programas de rádio. Explicava com precisão: “Se nada for feito, essa ponte cairá. Está claro. É questão de tempo.” Os poucos que o ouviam respondiam com silêncio ou riso. Alguns vizinhos comentavam nos corredores: “Coitado, anda obcecado”. Mas ele seguia firme, convencido de que um dia todos lhe dariam razão.

Até que, numa manhã de setembro, o jornal trouxe a manchete inesperada: “Prédio residencial desaba na madrugada”. Foi só então que o país descobriu, com espanto, que não era a ponte que cedia. Era o edifício dele.

A inclinação, afinal, estava em seu próprio chão.


Nikson Daniel Souza da Silva 

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