quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A Casa Sem Janelas

Maria ficou viúva em 2 de dezembro de 1996. A partir dali, nunca mais conseguiu seguir o curso natural da vida. Tentou, é verdade. Permitiu-se alguns encontros, envolveu-se em relações que pareciam promessa, mas sempre se revelavam engano. Amou de forma inconsequente, como quem busca apagar um vazio com outro vazio. E, de tanto se desiludir, acabou fazendo um pacto estranho: resolveu casar-se novamente, desta vez com a solidão.

Aos poucos, o tempo foi lhe endurecendo o olhar, embrutecendo os gestos, talhando seu rosto com marcas de desalento. O mesmo tempo que, implacável, transformava também sua casa.

As janelas — símbolos de abertura, de troca, de horizonte — foram sendo condenadas uma a uma. As mais largas, fechadas com tijolos. As menores, primeiro substituídas por vidro, depois por tábuas, até que também desapareceram. A claridade foi sendo expulsa. O ar rarefeito. O mundo deixou de entrar.

No meio dessa penumbra, Maria vivia uma rotina imutável, quase ritualística. Acordava sempre às quatro da manhã, tomava seu café forte e amargo, lavava a roupa, preparava o almoço. Saía para o comércio, comprava sempre as mesmas coisas, voltava para preparar seus drinks. Frequentava o mesmo restaurante, a mesma igreja, a mesma amiga, a mesma costureira. Qualquer pequeno desvio desse roteiro era para ela um sacrilégio. Sua vida tornara-se um círculo fechado, sem surpresas, sem brechas, sem janelas.

Seu corpo, assim como sua casa, também guardava cicatrizes. Numa queda, quebrou o braço, ficando com sequelas para o resto da vida — movimentos limitados, dores que se tornaram parte da rotina. Em outro episódio, por pouco não perdeu a própria existência; escapou por um fio, como se o destino ainda não tivesse decidido encerrar a sua história. Essas marcas eram como tijolos dentro dela, reforçando um muro que ninguém via, mas que ela carregava.

No fim, a casa de Maria tornou-se reflexo exato de sua alma: escura, murada, sem janelas. Não havia mais frestas por onde a vida pudesse espiar. Restava apenas o peso do silêncio, um abrigo que não aquecia, um corpo de paredes que era também um túmulo em vida.

Ela, que um dia tentara resistir, agora se confundia com aquela morada: uma mulher e uma casa, ambas fechadas sobre si mesmas, sem portas para o futuro, sem janelas para o mundo.

E, no fundo, talvez fosse essa sua escolha final — não mais se deixar atravessar pela claridade



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