Há sentimentos que nascem como auroras em meio à escuridão. Chegam brandos, quase invisíveis, mas trazem consigo uma força que desmonta o que parecia eterno. O amor é assim, ao mesmo tempo semente e tempestade, salvação e ruína.
A fera vivia há tanto tempo sozinha que já não se lembrava de quando o coração havia se tornado pedra. A solidão deixara de ser castigo e passara a ser abrigo. Não havia som, nem cor, nem calor, apenas o silêncio confortável do que é imutável. Tudo ao redor era gelo, e o gelo não dói, não pulsa, não exige.
Em seus olhos, o mundo parecia pequeno, repetido, previsível. Nenhum perfume, nenhum rastro, nenhum olhar atravessava suas defesas. Ela se acostumou à ausência de espelhos, à ausência de testemunhas, à ausência de si. Era uma fera calma, calma porque morta por dentro.
Mas um dia, quando o tempo parecia suspenso, uma borboleta entrou em sua caverna de inverno. Era tão frágil que parecia feita de ar. Suas asas traziam um pó avermelhado, quase invisível, e batiam devagar, como se desenhassem o som de um suspiro, como um fio de cabelo cacheado a voar pelo céu. A fera observou aquilo sem entender. Como algo tão pequeno podia mover o ar em volta, podia perturbar tanto o silêncio?
A borboleta não temia o frio. Pousou em seu ombro com a inocência das coisas que não sabem o risco que correm. E naquele toque breve, algo se moveu. A fera sentiu o coração latejar, um som esquecido, abafado por camadas de invernos. No início, pensou que fosse dor. Depois percebeu: era calor.
O gelo começou a derreter devagar. Primeiro, em pequenas gotas. Depois, em rios inteiros. As paredes que o protegiam começaram a ceder, e a fera sentiu o medo que vem junto com a vida. Amar, descobriu, era perder o controle, era abrir o corpo para o desconhecido, era aceitar a própria desproteção.
A borboleta voava em torno dele, e o coração, antes duro, agora batia em descompasso com o mundo. A fera quis guardá-la. Quis tê-la sempre perto, longe das tempestades, longe de tudo o que pudesse machucá-la. Mas como prender aquilo que nasceu para o voo? Como proteger o que só vive se for livre? Como querer para si, algo que nunca foi seu?
Foi então que a borboleta falou.
- Por que vive escondido no frio?, perguntou, pousando suavemente sobre seu ombro.
- Aqui é seguro, respondeu a fera. No frio, nada muda. Nada dói.
- Nada vive, também, disse ela, e seu riso soou como o farfalhar de asas no ar.
Aquelas palavras atravessaram o peito da fera como uma lâmina quente. Olhou para o chão e viu o gelo começar a rachar sob seus pés.
Nos dias seguintes, a borboleta voltou. E cada vez que aparecia, o ar parecia diferente. A fera começou a ouvir sons que antes não ouvia, o murmúrio da água derretendo, o sussurro do vento, o próprio coração tentando lembrar como se batia.
- Você não teme o frio?, perguntou ele um dia.
O frio é só o que ainda não foi tocado pelo sol, respondeu ela. E tudo pode ser tocado, até você.
A fera abaixou os olhos. Eu posso te destruir.
Pode, disse a borboleta, mas só se esquecer de que tem um coração.
Foi quando ele entendeu que algo dentro dele havia mudado para sempre. A cada batida de asas, o coração parecia acordar mais um pouco. Sentia calor, medo, ternura. Sentia-se vivo.
Um dia, a fera disse, com voz trêmula, - Fique comigo. Aqui será seguro.
A borboleta pousou em seu peito, bem sobre o coração que voltava a pulsar, e respondeu, Eu não nasci para ficar. O amor não é prisão. É voo.
A fera sentiu o medo. O mesmo medo de quem aprende a amar e, ao mesmo tempo, entende que amar é permitir a ausência.
Se você for embora, eu morro, confessou ele.
Se eu ficar, você nunca viverá, respondeu ela suavemente.
E antes que a fera pudesse dizer qualquer palavra, a borboleta levantou voo. O ar se encheu de brilho, e o calor dentro dele tornou-se insuportável. O gelo derreteu de vez, e o coração, livre e humano, queimava.
A fera tombou no chão, sentindo pela primeira e última vez o que era estar viva. O fogo que a borboleta acendeu não se apagou, apenas transformou-se em luz.
Enquanto o corpo da fera repousava, a borboleta ainda voava ao redor, como se dançasse em despedida.
- Obrigado, sussurrou ele, antes que o silêncio o tomasse, por me ensinar o que é sentir.
E então ela se afastou, sumindo entre os raios de um sol que nascia.
Existem sentimentos que nascem como tempestade e terminam como abismo. São bonitos de ver, mas perigosos de viver. O amor é um deles. Arrebata as amarras, liberta o que estava preso, mas nos despe de toda defesa. E é nesse desamparo que descobrimos o que é realmente viver, ainda que viver, às vezes, seja morrer um pouco.