segunda-feira, 27 de outubro de 2025

A Fera e a Borboleta

Há sentimentos que nascem como auroras em meio à escuridão. Chegam brandos, quase invisíveis, mas trazem consigo uma força que desmonta o que parecia eterno. O amor é assim, ao mesmo tempo semente e tempestade, salvação e ruína.

A fera vivia há tanto tempo sozinha que já não se lembrava de quando o coração havia se tornado pedra. A solidão deixara de ser castigo e passara a ser abrigo. Não havia som, nem cor, nem calor, apenas o silêncio confortável do que é imutável. Tudo ao redor era gelo, e o gelo não dói, não pulsa, não exige.

Em seus olhos, o mundo parecia pequeno, repetido, previsível. Nenhum perfume, nenhum rastro, nenhum olhar atravessava suas defesas. Ela se acostumou à ausência de espelhos, à ausência de testemunhas, à ausência de si. Era uma fera calma, calma porque morta por dentro.

Mas um dia, quando o tempo parecia suspenso, uma borboleta entrou em sua caverna de inverno. Era tão frágil que parecia feita de ar. Suas asas traziam um pó avermelhado, quase invisível, e batiam devagar, como se desenhassem o som de um suspiro, como um fio de cabelo cacheado a voar pelo céu. A fera observou aquilo sem entender. Como algo tão pequeno podia mover o ar em volta, podia perturbar tanto o silêncio?

A borboleta não temia o frio. Pousou em seu ombro com a inocência das coisas que não sabem o risco que correm. E naquele toque breve, algo se moveu. A fera sentiu o coração latejar, um som esquecido, abafado por camadas de invernos. No início, pensou que fosse dor. Depois percebeu: era calor.

O gelo começou a derreter devagar. Primeiro, em pequenas gotas. Depois, em rios inteiros. As paredes que o protegiam começaram a ceder, e a fera sentiu o medo que vem junto com a vida. Amar, descobriu, era perder o controle, era abrir o corpo para o desconhecido, era aceitar a própria desproteção.

A borboleta voava em torno dele, e o coração, antes duro, agora batia em descompasso com o mundo. A fera quis guardá-la. Quis tê-la sempre perto, longe das tempestades, longe de tudo o que pudesse machucá-la. Mas como prender aquilo que nasceu para o voo? Como proteger o que só vive se for livre? Como querer para si, algo que nunca foi seu?

Foi então que a borboleta falou.
- Por que vive escondido no frio?, perguntou, pousando suavemente sobre seu ombro.
- Aqui é seguro, respondeu a fera. No frio, nada muda. Nada dói.
- Nada vive, também, disse ela, e seu riso soou como o farfalhar de asas no ar.

Aquelas palavras atravessaram o peito da fera como uma lâmina quente. Olhou para o chão e viu o gelo começar a rachar sob seus pés.

Nos dias seguintes, a borboleta voltou. E cada vez que aparecia, o ar parecia diferente. A fera começou a ouvir sons que antes não ouvia, o murmúrio da água derretendo, o sussurro do vento, o próprio coração tentando lembrar como se batia.

- Você não teme o frio?, perguntou ele um dia.
O frio é só o que ainda não foi tocado pelo sol, respondeu ela. E tudo pode ser tocado, até você.

A fera abaixou os olhos. Eu posso te destruir.
Pode, disse a borboleta, mas só se esquecer de que tem um coração.

Foi quando ele entendeu que algo dentro dele havia mudado para sempre. A cada batida de asas, o coração parecia acordar mais um pouco. Sentia calor, medo, ternura. Sentia-se vivo.

Um dia, a fera disse, com voz trêmula, - Fique comigo. Aqui será seguro.
A borboleta pousou em seu peito, bem sobre o coração que voltava a pulsar, e respondeu, Eu não nasci para ficar. O amor não é prisão. É voo.

A fera sentiu o medo. O mesmo medo de quem aprende a amar e, ao mesmo tempo, entende que amar é permitir a ausência.
Se você for embora, eu morro, confessou ele.
Se eu ficar, você nunca viverá, respondeu ela suavemente.

E antes que a fera pudesse dizer qualquer palavra, a borboleta levantou voo. O ar se encheu de brilho, e o calor dentro dele tornou-se insuportável. O gelo derreteu de vez, e o coração, livre e humano, queimava.

A fera tombou no chão, sentindo pela primeira e última vez o que era estar viva. O fogo que a borboleta acendeu não se apagou, apenas transformou-se em luz.

Enquanto o corpo da fera repousava, a borboleta ainda voava ao redor, como se dançasse em despedida.
- Obrigado, sussurrou ele, antes que o silêncio o tomasse, por me ensinar o que é sentir.

E então ela se afastou, sumindo entre os raios de um sol que nascia.

Existem sentimentos que nascem como tempestade e terminam como abismo. São bonitos de ver, mas perigosos de viver. O amor é um deles. Arrebata as amarras, liberta o que estava preso, mas nos despe de toda defesa. E é nesse desamparo que descobrimos o que é realmente viver, ainda que viver, às vezes, seja morrer um pouco.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Trilogia do eu

Fiquei aqui, no eco das escolhas,

tentando costurar o tempo rasgado,

descobrindo que dor também é linguagem,

e que o silêncio, às vezes, foi o que mais gritou.


Não te culpo pelas quedas,

elas ensinaram o chão a ter nome.

Havia beleza mesmo quando doía.


Tu choraste como quem perde um país,

como se o peito fosse um território sitiado.

Mas amor não é pátria, é travessia,

e nem todo porto promete volta.


Não implores pelo que foi,

guarda apenas o cheiro do instante,

porque até o adeus tem perfume.


Te vi acolher o que vinha e ia,

como se teu peito fosse abrigo do mundo.

Mas há horas em que o abrigo precisa fechar as janelas,

deixar que a tempestade passe sem testemunhas.

Tu só querias aprender a descansar em ti.


Houve dores que voltaram como velhas conhecidas,

sabiam o endereço, o tom da tua voz.

Tu as recebeste como quem serve café,

achando que hospitalidade era cura.

Cura é quando aprendes a não esperar que te entendam.


As palavras que não disseste

pesavam nos lábios como pedras presas no fundo do rio.

Guardaste demais, talvez por medo de ferir,

talvez de ser ferido.

O não-dito também fere,

e o silêncio às vezes mata antes da lâmina.




Vi-te correr por rostos alheios,


implorando migalhas de pertença.


Eras jardim, mas só conhecias as sombras.


Amar é verbo reflexivo,


quem se esquece no espelho se perde no abraço.




Agora que já fui e já voltei,


que morri em tantas versões de mim,


posso te dizer com ternura,


valeu.


Não pelo brilho,


mas pela coragem de atravessar a escuridão sem mapa.


Tudo o que doeu também te escreveu,


e é nisso que te tornaste:


poema, cicatriz e caminho.




Olho para mim e encontro rugas de riso


e sombras de noites em claro.


Não me reconheço totalmente,


e ainda assim sei que sou eu.


Hoje estou inteiro, mesmo fragmentado,


aprendendo que estar é mais que existir.




Cada fôlego parece carregar histórias antigas


que insistem em sussurrar.


Sinto o cansaço e o medo,


mas também a força que habita meus ossos.


Estou aqui, respirando como quem insiste em não fugir


daquilo que ainda é meu caminho.




Meu corpo lembra, mesmo sem eu querer,


as quedas e os abraços perdidos.


Hoje estou nele, atento e dócil,


como quem aprende que sentir é um dever,


e que não há vergonha em ter cicatrizes.




O que não digo ecoa alto dentro de mim


como um rio lento que nunca seca.


Hoje estou ouvindo o que antes ignorava,


aprendendo que o silêncio também é voz


e que ele tem muito a ensinar sobre quem sou.




Sinto o medo, sempre me visitando,


mas a coragem insiste em permanecer.


Hoje estou nele,


não como quem domina, mas como quem caminha ao lado,


como quem entende que viver é atravessar trevas com passos pequenos.




Hoje estou me tocando com ternura,


oferecendo a mim o que tanto busquei nos outros.


Aprendo que o amor próprio não é egoísmo,


é sobrevivência, é semente que floresce no chão seco


e que só eu posso regar.




Hoje estou aqui, e isso é suficiente.


Não sei o que virá depois,


mas sei que cada instante é uma folha em branco


e que posso escrever com cuidado,


com dor, com riso, com desejo.


Hoje estou, e isso já é poesia.




Penso no que ainda não sou,


nas sementes que germinam silenciosas dentro de mim.


Serei flor que se recusa a murchar,


mesmo quando o sol falhar.


Serei raiz que segura o chão,


mesmo quando o vento quiser levar tudo.




Serei quem fala sem pedir licença,


quem grita quando a injustiça aperta,


quem canta mesmo com a garganta seca.


Serei voz que não se cala,


ecoando pelos corredores do tempo


como aviso e lembrança do que é viver.




Serei corpo que se ama inteiro,


que se respeita e se acolhe nas curvas e cicatrizes.


Aprenderei a habitar a minha carne


sem medo nem pressa,


como quem descobre que a liberdade começa aqui.




Serei coração que cabe o mundo,


que entende que doar não é perder,


que sentir dor não é fraqueza,


que amar sem amarras é coragem.


Serei peito aberto como janela,


onde entra vento, luz e esperança.




Serei passos que deixam marca,


não por vaidade, mas por presença.


Aprenderei a caminhar sem pressa,


a respeitar trilhas antigas,


e a escrever minhas pegadas no chão


como quem sabe que tudo que fiz e farei é legado.




Serei silêncio que não teme o eco,


que escuta sem julgar, que entende sem pressa.


Aprenderei que algumas respostas vêm devagar


e que é no espaço entre palavras


que o tempo me ensina a ser inteiro.




Serei futuro, mas também presente,


um ponto de luz e sombra,


um livro ainda por escrever,


um poema que se descobre a cada dia.


E quando me olhar, enfim,


reconhecerei tudo que vivi, tudo que estou e tudo que serei.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Do Avesso

Há dias em que o peito não cabe no corpo,

em que o sangue corre de trás pra frente,

e a alma, essa fera indomável,

rasga o próprio ventre

pra ver se encontra sentido no caos.


Há dias em que amar é guerra,

e respirar é um ato de coragem.

Em que o espelho devolve

um estranho com teus olhos,

um naufrágio com teu nome,

um silêncio com tua voz.


Mas há também, nas ruínas do sentir,

uma centelha, obscura, mas viva,

que pulsa feito tambor de guerra,

gritando: “ainda estou aqui.”


E quando o mundo te virar do avesso,

deixa.

Deixa o chão te conhecer pelo nome,

deixa o abismo te chamar de irmão,

deixa o vento fazer morada

nos vãos das tuas costelas.


Porque só quem desce até o fundo

sabe o peso e o brilho da própria escuridão.

E só quem foi despido de si

descobre a força de renascer sem pele.


Então ergue-te, se como antes, luta!

se com o algo novo, selvagem e inteiro, luta!

Só não se acostuma com a inespida dor, pois 

És feito o trovão que aprendeu com a dor

a cantar.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A Casa Sem Janelas

Maria ficou viúva em 2 de dezembro de 1996. A partir dali, nunca mais conseguiu seguir o curso natural da vida. Tentou, é verdade. Permitiu-se alguns encontros, envolveu-se em relações que pareciam promessa, mas sempre se revelavam engano. Amou de forma inconsequente, como quem busca apagar um vazio com outro vazio. E, de tanto se desiludir, acabou fazendo um pacto estranho: resolveu casar-se novamente, desta vez com a solidão.

Aos poucos, o tempo foi lhe endurecendo o olhar, embrutecendo os gestos, talhando seu rosto com marcas de desalento. O mesmo tempo que, implacável, transformava também sua casa.

As janelas — símbolos de abertura, de troca, de horizonte — foram sendo condenadas uma a uma. As mais largas, fechadas com tijolos. As menores, primeiro substituídas por vidro, depois por tábuas, até que também desapareceram. A claridade foi sendo expulsa. O ar rarefeito. O mundo deixou de entrar.

No meio dessa penumbra, Maria vivia uma rotina imutável, quase ritualística. Acordava sempre às quatro da manhã, tomava seu café forte e amargo, lavava a roupa, preparava o almoço. Saía para o comércio, comprava sempre as mesmas coisas, voltava para preparar seus drinks. Frequentava o mesmo restaurante, a mesma igreja, a mesma amiga, a mesma costureira. Qualquer pequeno desvio desse roteiro era para ela um sacrilégio. Sua vida tornara-se um círculo fechado, sem surpresas, sem brechas, sem janelas.

Seu corpo, assim como sua casa, também guardava cicatrizes. Numa queda, quebrou o braço, ficando com sequelas para o resto da vida — movimentos limitados, dores que se tornaram parte da rotina. Em outro episódio, por pouco não perdeu a própria existência; escapou por um fio, como se o destino ainda não tivesse decidido encerrar a sua história. Essas marcas eram como tijolos dentro dela, reforçando um muro que ninguém via, mas que ela carregava.

No fim, a casa de Maria tornou-se reflexo exato de sua alma: escura, murada, sem janelas. Não havia mais frestas por onde a vida pudesse espiar. Restava apenas o peso do silêncio, um abrigo que não aquecia, um corpo de paredes que era também um túmulo em vida.

Ela, que um dia tentara resistir, agora se confundia com aquela morada: uma mulher e uma casa, ambas fechadas sobre si mesmas, sem portas para o futuro, sem janelas para o mundo.

E, no fundo, talvez fosse essa sua escolha final — não mais se deixar atravessar pela claridade



terça-feira, 23 de setembro de 2025

Inclinação

 Do vigésimo andar, ele via a ponte todos os dias. Era quase um quadro permanente, moldurado pela janela da sala: o rio lento, os carros apressados, o arco de concreto atravessando o horizonte. No começo, a ponte era apenas parte do cenário – tão comum quanto o café da manhã ou o som dos elevadores. Mas, com o tempo, seus olhos treinados pelo hábito começaram a notar algo diferente.

Havia uma leveza torta ali. Um desnível quase imperceptível, um centímetro a mais de sombra no lado esquerdo. Intrigado, passou a observar com mais atenção. Marcava, a cada manhã, o ângulo imaginário que separava o equilíbrio da ruína. Comprou uma trena, um nível, fez cálculos em folhas soltas. E, mês a mês, confirmava: a ponte inclinava-se.

Preocupado, escreveu cartas para o jornal, mandou e-mails para a prefeitura, telefonou para programas de rádio. Explicava com precisão: “Se nada for feito, essa ponte cairá. Está claro. É questão de tempo.” Os poucos que o ouviam respondiam com silêncio ou riso. Alguns vizinhos comentavam nos corredores: “Coitado, anda obcecado”. Mas ele seguia firme, convencido de que um dia todos lhe dariam razão.

Até que, numa manhã de setembro, o jornal trouxe a manchete inesperada: “Prédio residencial desaba na madrugada”. Foi só então que o país descobriu, com espanto, que não era a ponte que cedia. Era o edifício dele.

A inclinação, afinal, estava em seu próprio chão.


Nikson Daniel Souza da Silva 

terça-feira, 9 de setembro de 2025

O mundo não vai parar só porque você está mal. A vida continua, impiedosa, indiferente às suas lágrimas ou ao peso que você carrega no peito. As caras feias, os deboches, as críticas veladas, nada disso vai colocar comida na mesa ou pagar as suas contas. É preciso ser forte, erguer a cabeça e seguir em frente, mesmo quando tudo em você pede para parar.

Mas ser forte não significa que não doa. A força não anula a dor, apenas a envolve em silêncio e disciplina. Ser resiliente não é sinônimo de indiferença. O que machuca, machuca. O que fere, fere. O que cansa, cansa. Há batalhas invisíveis que ninguém vê, e, mesmo assim, você precisa travá-las todos os dias.

Reconhecer a dor não te torna fraco. Pelo contrário, admitir que dói e, ainda assim, continuar caminhando é a prova mais autêntica de coragem. Porque resistir, apesar do peso, é um ato de grandeza que só quem vive sabe o quanto custa.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

A última vez..

 A rua debaixo era mais que rua, era o nosso estádio, nosso palco e, de certa forma, nossa escola de vida. O chão quente, o pó vermelho grudando no suor, os chinelos servindo de trave e a bola que nunca descansava. Cada fim de tarde parecia igual, mas nenhum foi repetido. Um deles, sem sabermos, foi o último.

Lembro de Guegué, sempre chegando enrolado na toalha de mesa. Ríamos, mas sabíamos o motivo: a mãe, na tentativa de segurar o menino em casa, deixava-o nu enquanto trabalhava. E lá estava ele, driblando o mundo com o pano arrastando pelo chão, até largar a toalha e se juntar à bagunça.

Eu tinha minhas artimanhas também. Mandado para comprar pão, sumia por duas horas. O pão ficava esquecido na esquina, enquanto eu corria atrás da bola. Para despistar bronca, escondia uma muda de roupa na casa de dona Daluz, mãe de Roger, Walex, Wescley e Wendel. Jogava, suava, trocava de roupa e voltava para casa como se nada tivesse acontecido.

Genilson era o menino do me dá aqui. Pedia tudo: a bola, a bicicleta, a vez. Era parte do jogo, parte da nossa paciência treinada na marra. Breu e os irmãos eram só molecagem, inventavam confusão, davam risada alta, transformavam cada detalhe em motivo para caçoar.

E havia Marcos e Diogo, os irmãos descolados. Tocavam violão na porta de casa, malhavam improvisando pesos, e eram sempre a referência de estilo e atitude. Quando o futebol parava, era para a música começar. Reuníamo-nos ali, desafinados e felizes, como se o mundo inteiro coubesse em três acordes e algumas risadas.

Anderson, com sua calma firme, muitas vezes no gol, e Guegué, com sua gargalhada solta, já não voltaram. O mar os levou cedo, numa daquelas viradas da vida que a gente nunca entende. Mas mesmo isso, mesmo a dor da falta, foi apenas um episódio dentro do fluxo que seguiu.

Porque o que realmente mudou não foi apenas a ausência deles, mas o tempo. De repente, as idas à rua debaixo deram lugar ao estudo, à faculdade, ao trabalho, aos namoros, às obrigações. O cotidiano, sem nos pedir licença, virou outro. Um dia, simplesmente, a bola parou de rolar. O pão deixou de ser desculpa. O violão foi guardado. E ninguém disse: foi a última vez.

É isso que o tempo faz: vai desmontando o cenário, peça por peça, até que a gente se dá conta de que não há mais partida marcada.

Hoje, se fecho os olhos, ainda vejo a toalha de mesa de Guegué esvoaçando, ouço as cordas do violão de Marcos e Diogo, sinto o pó da rua grudando no suor. O jogo não acabou: ele apenas ficou suspenso na memória, eterno naquilo que nunca mais será vivido.

No fundo, talvez seja assim: cada instante é também uma despedida disfarçada. E só a lembrança, teimosa, insiste em manter aceso o que fomos, meninos correndo atrás de uma bola na rua debaixo, sem imaginar que a vida, sorrateira, já preparava o apito final.

Fagmentos da Alma

 

Amor em Silêncio

Nas profundezas da noite silenciosa, onde estrelas sussurram segredos,

Há um abismo imenso, onde minha alma, fragmentada, se perde em ecos.

Sou o vilão nas histórias que contam, sombra projetada em paredes frias,

Culpado aos olhos dos que não veem as lágrimas escondidas em minhas poesias.


Amar é um paradoxo — uma chama que queima e ilumina,

Mas às vezes, amar é acender uma vela... que cega.


Cercado por reflexos distorcidos de um coração em ruínas,

Renuncio ao êxtase de um sentimento puro para salvar a alma dileta.

A dor é um rio, serpenteando silencioso por campos de esperança,

Carrega pedaços de um sonho desfeito — cada gota, uma lembrança.


Mas há uma fortaleza em cada renúncia, um castelo erguido no sacrifício,

Pois sei que protegê-la é afastar-me, mesmo que à custa do meu paraíso.


Serei o guardião da sua paz, o escudo contra tempestades ocultas,

Mesmo que, por vezes, eu seja a tempestade em seus olhos.

Meu amor, segredo trancado em cofres de aço e dor,

Atravesso desertos de incompreensão, para que jamais conheças esse sabor.


Sou a sombra que dança na periferia da sua luz,

A face oculta da lua, sacrificando brilho para que ela resplandeça.


Se sou mau, então que seja — pois a bondade se mede pela mão que protege,

E não pelos olhos que julgam sem ver as feridas de quem protege e fere sem querer.

Assim, caminho entre espinhos e flores murchas,

Com o coração aflito, mas a consciência serena.


Pois na renúncia do meu sentimento, encontro a essência do amor:

Protegê-la — mesmo que minha alma se quebre — é meu eterno labor.


Perdido nas sombras, meu coração sangra,

Ainda ouso amar, mesmo que não compreendam.

Cicatrizes profundas... a luz que te protege é minha única demanda.


Sou a escuridão para tua luz brilhar,

Amor que renuncia para teu riso perpetuar.

Nada mais importa, pois ao te ver feliz, minha alma se acalma.

Assim, sigo em silêncio — com a dor que me embala.



Ceia da Solidão

Nos cantos gelados da solidão,

Há um prato servido, sem sabor.

Fria é a comida, insossa a sensação,

Na mesa vazia, ecoa a dor.


Mastiga-se o tempo, morno e lento,

Engole-se o silêncio, seco e cru.

Cada garfada, um desalento,

Cada mordida, um vazio nu.


A solidão tempera o prato

Com especiarias de ausência e pesar.

E o coração, solitário e ingrato,

Digerindo lembranças sem par.


No frio da alma, o paladar se perde,

E a fome de companhia persiste.

No prato insosso, a esperança cede,

E a saudade, em cada garfada, insiste.


Mas mesmo na ceia da solidão,

Há espaço para um fio de luz.

Pois o amanhã traz nova refeição,

E quem sabe… um sabor que reluz.



Meus Filhos, Minha Inspiração

Filhos, sois a luz que brilha em meus dias,

Estrelas que iluminam minhas noites,

Razão e amor que guiam minhas vias,

No peito, guardo vossas doces vozes.


Raphael, guerreiro forte e valente,

Tua coragem inspira meu coração,

Cada passo teu, um sonho presente,

Orgulho que floresce em cada ação.


Júlia Letícia, flor de delicadeza,

Teu sorriso é o sol que me aquece,

Tua alegria, um mar de pureza,

Em teus olhos, o mundo resplandece.


Filhos amados, minha eterna canção,

Em vós encontro força e devoção.

Que vossa vida seja sempre bela,

E que meu amor por vós seja sentinela.


Nos momentos de alegria e de dor,

Estarei sempre ao vosso lado —

Serei abrigo, direção e calor,

Para que sigam sempre confiantes.


Raphael, tua força é minha coragem,

Júlia Letícia, tua ternura é meu farol.

Vocês são minha herança mais bela,

Meu amor eterno, meu maior tesouro.


Que o mundo vos abrace com bondade,

E que o amor vos guie em cada jornada.

Raphael e Júlia Letícia, meus queridos,

Em vós, encontro meu sentido e minha paz.


Que a vida vos reserve sorrisos e encantos,

E em cada desafio, encontrem a força:

Raphael, destemido; Júlia, suave encanto —

Unidos, formamos uma família grandiosa.


Nas alegrias, celebraremos juntos,

Nas tempestades, serei abrigo e paz.

Filhos, meu amor por vós é imenso —

Eternamente estarei, jamais sós.


Cresçam livres, fortes e felizes,

Seguindo os sonhos, construindo pontes.

Raphael e Júlia Letícia, amores da minha vida,

Minha inspiração, minha razão mais profunda.



Discurso Silencioso

Fiz do silêncio meu melhor discurso,

Na calma, as palavras adormeceram.

Dentro de mim, um mar de sentimentos

Que, sem som, ao mundo se revelaram.


A quietude se fez então minha voz,

E nas pausas encontrei sabedoria.

Sem ruídos, cada gesto ganhava força,

E a alma se expressava em harmonia.


No vazio das palavras, a verdade surge,

E o coração se despe, sem temor.

Fiz do silêncio meu abrigo seguro,

Onde a paz é eterna e o amor, redentor.



TE ENCONTREI


No inesperado da vida, te encontrei,

Num encontro que o destino desenhou.

Minhas angústias, então, te confessei,

E em teu olhar, refúgio se mostrou.


Cada palavra tua, suave alívio,

Curando feridas que o tempo causou.

A cada desabafo, sentia o desvio

Do peso que meu coração carregou.


Em ti, encontrei o bálsamo querido,

E no compartilhar, renasci.

Segredos e dores, em ti depositados,

Num laço de paz, eu me refiz.


Agora sou inteiro, pois te achei:

Abrigo sereno em meio à tempestade.

No inesperado, a verdade encontrei —

E em ti, a mais doce amizade.



"Canção da Solidão"


Na solidão, minha única companhia,

Caminho só, na noite fria e vazia.

As estrelas, distantes, já não me guiam,

E o silêncio embala as dores que se aninham.


Mas na quietude, há reflexão,

Na ausência, pulsa a introspecção.

Descubro força em minha integridade,

E, na solitude, a mais pura verdade.


A solidão, amiga fiel e silente,

Guia meus passos, meu ser, minha mente.

Nela encontro paz — mesmo na escuridão,

Pois nela ecoa minha própria canção.




A canção que não escrevi


Pra você, não cantarei nenhuma canção,

Nem declamarei verso, ode ou oração.

Não farei da palavra doce armadilha,

Nem darei voz à alma em forma de trilha.


Não perderei meu tempo precioso

Tentando encantar teu ser duvidoso.

Não buscarei formas de te agradar,

Nem farei do amor arte pra te mostrar.


Pra você, não escreverei uma só linha.

Palavras não bastam — alma minha caminha.

Folhas não guardam quem em mim habita,

Nem tinta contém paixão infinita.


Mas não entendo tua fome de escrita —

As ditas palavras já não são benditas?

E tudo que fomos, não foi poesia?

Nos risos, nos olhos, na melancolia?


Não escreverei. Definitivo serei.

Não em papel, nem com tinta, nem lei.

Mas prometo, dia após dia, encantar,

Te tatuar com o mais lindo amar.


Serei canção que só teu peito ouve,

Serei poema em silêncio que comove.

Te darei a história mais bela que inventei...

Mesmo que jure que não te escrevi — eu te escrevei.



Portais da Alma

Teus olhos, esquivos, tentam esconder

A dor silente de um ser aflito,

Traços sutis no teu rosto bonito,

Guardam um pranto que não quer doer.


Tua firmeza é só um disfarçar

De angústias que já te ferem fundo.

Pareces forte — mas, no outro mundo

Que guardas dentro, só queres voar.


Hoje és a soma do que decidiste,

Mas contra isso clama o teu querer.

És a escolha, mas também o não-ser:

Um corpo firme, um desejo triste.


Saturno pesa — mas mais do que ele,

Pesam promessas que deixaram marcas.

Alianças? Não! São feridas raras,

Que sangram quietas sob o mais belo véu.


Teus olhos mentem? Não sabem mentir.

Revelam, nus, tua alma encarcerada.

E a cela foste tu quem desenhada,

Com medo do que pudesse vir.


Mas tua alma, em segredo, te trai:

Salta as frestas, voa além do abismo.

Em cada sonho, em leve heroísmo,

Sopra ventos que a ti sempre atrai.



E quando enfim tua alma se enxergar,

Na liberdade de um novo alvorecer,

Verás teus olhos brilhar e viver —

Portais da alma, prontos pra amar.



Eu sinto sua Falta


A noite avança, e o ponteiro do relógio marca 23:00.


Uma inquietude atormenta minha alma, tira minha calma, perturba meu ser.


Um grito contido na garganta clama, por dentro, a palavra “saudade”.


Saudade de alguém que, embora longe, estará sempre tão perto quanto se possa imaginar,

pois habita meu coração e meus pensamentos.


Carregarei teu ser em cada sorriso, em cada olhar vago,

na gargalhada solta ao lembrar de nós,

e nas lágrimas que, na tua ausência, são tão naturais quanto o pensamento

a se perder entre as lembranças de um presente feliz.


Desejo ver teu sorriso, então,

para contemplar com os olhos aquilo que só meu coração pode ver.



Quero Molhar Meus Pés


Quero molhar meus pés...

Chegar até a praia, abrir os braços,

ser envolto pela brisa e respirar o cheiro do mar...


Quero um momento sozinho,

mas com você ao meu lado,

um daqueles momentos em que nada precisa ser dito,

nem abraço, nem palavra.


Quero perder meu olhar no horizonte,

pensar em tudo, lembrar de tudo, ouvir a canção do vento...


Poder olhar de lado, disfarçadamente,

contemplar teu rosto,

juntar os meus lábios e fechar os olhos

como quem sorri,

quero, incerto, disfarçar que não te olhava...


Quero simplesmente molhar os pés,

não porque estejam cansados da caminhada,

nem doloridos pelas pedras do caminho,

mas porque o mar, ao molhar os pés,

rega a planta viva da esperança que há em mim,

que sou eu...


Vem...

O futuro é logo ali,

escondido atrás daquela linha chamada horizonte...


Vem, segura minha mão e vamos juntos...


Quero molhar meus pés...



Chuva de Saudade


Hoje à tarde, os céus choraram nossa saudade...

A água que caía na rua, formando pequenas poças,

lavando o chão, regando plantas,

deixando o clima de travesseiro e filme,

dando sentido à velha preguiça do entardecer...


Molhava também o teto de minh’alma,

trazendo à lembrança momentos compartilhados,

histórias contadas, sorrisos lançados ao vento,

pedras arremessadas ao mar

e um sentimento sublime e inconteste

que alimentava a lareira do coração.


Nesta tarde, os céus choraram nossa saudade,

mas abriu-se em meu peito um incomparável riso...


Por um instante, corri sob as gotas da chuva,

o cabelo molhava, um sorriso de menino...


Pois hoje à tarde choveu, e eu me molhei,

me molhei na chuva,

mas mais ainda nas lembranças

que inundaram minha alma,

vontade de te ver e a certeza

de querer-te sempre bem...



Noite de Saudade


Ontem, a noite estava fria,

não direi, contudo, que necessariamente senti frio.

Poderia até utilizar-me, com certo alarido poético, desses termos,

mas ontem foi diferente.


A baixa temperatura exterior não alcançou meu coração,

que era aquecido pelo mais sublime sentimento: o amor...


A saudade inconteste das noites passadas não houvera reduzido,

contudo, fora mesclada às vontades,

tornando-se aprazível,

e muito além da mera dor de querer e não ter.


Vontade de ver novamente teu sorriso,

de viver mil aventuras em tempos improváveis,

de estar ao teu lado e dentro dos meus braços,

em muitos abraços onde encontres aconchego.


Vontade de lançar pedras no mar

e sentir a brisa suave,

mas não tão suave quanto o toque de tuas mãos.


E deste modo, olhando para a lua,

pedi a Deus para ter você aqui perto de mim, ao meu lado,

pois dentro de mim teu nome me é comum,

pois minha alma incansável te chama

por querer-te com ardor.


A lua prateada iluminava a esperança na janela do quarto,

seu brilho parecia casar-se com o aroma das rosas que lentamente desabrochavam.


Lá fora, o silêncio era violado pelo uivo dos cães,

que pareciam saudosos ao ver dois seres caminhar à hora avançada.


Enquanto isso,

em uma caixa guardada em meu peito,

latejava o coração,

ardendo inconsolável de saudades.




Amar e Ser Feliz


Um dia, ao olhar para trás, veremos

que as lembranças são pequenas para tanto.

Tentaremos contar beijos e risos,

mas será mais fácil contar estrelas

ou encontrar uma chuva de meteoros.


Nossos sorrisos serão tão profundos

que até o mais triste se alegrará.

O futuro no presente brilhará,

e o passado, pegadas na areia.


Meus olhos, ao escrever, se enchem,

pois meus dedos e lábios obedecem

ao coração que transborda de amor.


Quero te dizer que te amo, amo,

prometo te fazer feliz, te amar,

respeitar, honrar, sempre fiel,

e que, nas tristezas, sejamos

um para o outro consolo e paz.


Que a regra seja amar e ser feliz.



Veneno e Antídoto


A dor de um amor quebrado

é como o veneno de uma serpente...


Só se encontrará o antídoto

naquele que causaria sua morte:

o próprio amor.


Não quer dizer, necessariamente,

que se cura um amor com outro —

não é isso —


mas o espaço deixado

por um amor que parou de viver,

a lacuna da solidão,


essa, evidentemente,

só será preenchida por um novo,

por outro amor.


O veneno que mata é o mesmo que cura.


Mas se se morre de amor?


Deixe que Gonçalves Dias explique...


Se se morre, não sei,

mas teu amor me devolveu a vida,

outrora esquecida,

empacotada junto com a esperança

num baú chamado destino...




Amor Diferente


Certa noite te falei

que o que sentia por você

era deveras diferente...


Você me perguntou, então,

por que razão eu julgo diferente...

e eu respondi:


Sabe por que é diferente?

Porque é puro, porque não é egoísta.

Porque não faz mal, não causa dor.


É diferente porque nossa luz é a lua e as estrelas.

De nosso filme, somos os protagonistas

de uma história feliz.


Os quadros de nossa vida são de tinta viva,

lagartas viram borboletas,

crianças sorriem,

cachorros alvoraçados latem...


É diferente porque nós não queremos

que seja igual a nada que já vivemos...




A Menina da Rua Oito


Meu coração fugiu do meu peito

e, assustado, se escondeu,

como um cão covarde que encontrou abrigo

nos braços de uma menina, a menina que mora na rua oito...


Por mais que eu quisesse resgatar o pobre coração,

ele certamente não viria:

ela cuidou tão bem dele,

mesmo com a debilitada saúde de seu já sofrido coração,

dedicou-se com zelo à tarefa de cuidar bem dele.


A menina da rua oito,

tão singela, tão doce, tão conveniente...


A menina da rua oito tem defeitos —

isso todos têm —

mas maiores que seus defeitos

são suas qualidades:


um oceano de adjetivos não seria suficiente

para descrever suas peculiaridades...


A menina da rua oito

traz em seus olhos os pergaminhos da sua história...


A menina da rua oito

deixa meu coração assim:

tranquilo e afoito...



Brilho e Ausência


Quando olho em teus olhos,

a única certeza que tenho

é a de que irei me perder,

vagueando silenciosamente

pelo brilho dos teus olhos,

pelos mistérios do teu olhar...


Quando te fazes presente,

dissipa-se toda tristeza,

não há espaço para a angústia

nem tampouco para a indiferença.


Se estás ao meu lado,

o sorriso se torna fácil,

e a alegria se alastra

em uma conquista sem fim.


Minha face, meio boba,

tenta camuflar,

de forma infrutífera,

todo o sentimento que por ora contenho.


Minhas mãos teimosas

assanham constantemente

tuas sombrancelhas e teu cabelo.


O tempo parece voar,

e nem o vejo passar,

enquanto isso, aproveito cada instante

da tua presença,

como se fossem os últimos.


Mas quando ela parte,

leva consigo meu coração,

deixando para trás

a dor de quem ama,

matando de saudade,

transbordando de paixão.



Ciclo de Dor


Ontem, inconsequente, perdi-me no espaço,

cegamente buscando este tal sentimento,

tropeçando por entre os meus próprios passos,

contemplei a dureza de teu tratamento...


Hoje, sentado à beira da razão,

lembro-me das loucuras de outrora,

dos meus sonhos lançados ao chão,

esfacelados por ti, sem demora.


Amanhã, só o tempo poderá dizer

se a mais profunda ferida

deixará, enfim, de arder.



E depois, quem sabe, com a dor contida,

o sofrimento poderei deter,

dando rumo à minha vida.


Caranguejada


O mar,

as ondas,

um caranguejo morto.


O vento,

a brisa,

um helicóptero no ar.


E nós, como peixes,

a lutar contra a correnteza,

querendo voltar para o que há de profundo,


lançados entre as pedras dos conflitos,

arrastados pelas ondas do destino.


O mar,

as ondas,

um caranguejo morto...


Caranguejada.



Por Detrás


Por detrás destes olhos cansados

e aparentemente tristonhos,

reside a vontade de arrancar

mil sorrisos do teu lindo rosto.


Por detrás deste sorriso meia-boca,

com aspecto tímido,

habita uma alma escancarada

que se alegra ao te ver.


Não significa, porém, que os gestos sejam levianos,

nem que os sentimentos sejam desnutridos a ponto de não se expressarem.


Esta é a mais pura expressão de respeito,

pois se contenho em mim

aquilo que me dilacera,

é por conhecer tuas conveniências.


Por detrás de mim, abriga-se um louco apaixonado;

dentro de mim, guardo gritos de desespero,

e já não posso enganar mais a ninguém.




Duelo de Titãs


Quisera eu tornar o querer em poder,

quem me dera subverter o que está colocado,

transgredir violentamente a lei dos homens,

fazer o que me bem vier na mente.


A sangrenta luta entre o necessário e o imprescindível

atormenta minha alma, tornando o que seria natural

parte ardilosa de uma tortura descomunal.


Meu sonho e meu ideal se digladiam,

em luta mortal em que não haverá vencedor:

de um lado o amor, do outro a honra e a moral —

todos: EU e EU — ninguém.


E nesta épica batalha,

neste duelo de titãs,

prossigo retendo em meus olhos

o sangue escorrido de um coração partido.



Noite Escura


Na noite escura,

suspiro agoniado,

os ais de um passado

e os entraves do porvir.


Caminho pelas curvas do presente,

que se passa velozmente

na efemeridade do viver.


Na noite escura,

acordo de um dia adormecido,

que pelos olhos esquecidos

não foi notado, não pude ver.


Desperto, mas então,

se todos dormem,

se injuriam com meu grito,

mandar-me-ão novamente adormecer.



Desenho no Coração


Te desenhei em meu coração

e não achei borracha que pudesse apagar.

O vermelho-sangue de teu vestido

se fundiu ao pano de fundo,

junto à cor do teu batom.


Te desenhei em uma moldura clichê,

com o já surrado pincel da esperança...


Escolhi cuidadosamente as cores —

cores vivas, mais vivas que o pulsante coração

que ora me serviria de tela.


Sem hesitar, espalhei as tintas

e, com as próprias mãos, desenhei teu rosto.

Teu sorriso, como o sol do amanhecer,

ressaltou-se e, junto ao brilho de teus olhos,

trouxe-me a vida,

colocando em alto-relevo

todo tipo de bom sentimento

que já pude provar,

e aqueles que ainda anseio,

mas que, por sorte ou azar,

me escapam constantemente

entre os dedos sujos de mil tintas,

que já não têm firmeza para prendê-los.


Desenhei em meu coração a figura

que configura, transfigura e fulgura...

que, com sapiência,

subverte a ciência,

confunde essência e aparência...


Desenhei-te em meu coração,

copiei-te em minh’alma,

e já não há quem possa apagar...



Retiro em Solidão


Retiro-me nesta noite, em minha febril insignificância,

pois o tempo é curto e a saúde já não me permite continuar.


Ainda assim, avistarão minhas frases lançadas ao vento,

em qualquer vendaval,

ou minhas lembranças à deriva em algum mar qualquer...


Quem sabe me perguntem, oportunamente, como estou —

mera ilusão.


Vou-me, deixando para trás a vontade de ficar...

Vou apressado, pois o tempo, em assalto, me tomou.


Vou apressado encontrar a mim mesmo

em um lugar que o devaneio me fez esquecer onde é.


Perguntarei à loucura, logo ali na esquina —

mas essa tal loucura, hein...

que não se cansa de andar com a paixão,

parecem até gêmeas siamesas.


A sensatez... eu, na pressa, deixei para trás...


Tenho esperança de, no caminho, encontrar o amor...

Mas este me parece uma lenda urbana:

encontrá-lo é coisa rara,

e quando acontece, dura dois dedos de prosa

e logo se vai...


Estou indo encontrar comigo mesmo,

em um lugar que não lembro o nome,

mas que escrevi em um guardanapo,

em forma de flor, guardado na carteira...


Lentamente, olho então a folha amassada...



O lugar em questão chama-se solidão,

e lá, encontrarei a mim mesmo

— e mais ninguém.


Prato Quente


Se ao acaso você der um prato quente

a um animal faminto,

certamente ele comerá sem hesitar,

ainda que isso lhe queime a boca.


Se isso se repetir,

ele lamberá uma ou duas vezes,

mas, por fim, lembrará da dor.


Na terceira vez, hesitará,

pois mais que a fome,

será o desejo de se preservar

da agonia de queimar-se.


Assim é meu coração —

como um animal faminto...


E como um prato a fervilhar,

teu desprezo me queima:

os lábios, a língua, a boca...


Não sei por que insisto em querer-te,

não sei por que insisto em sentir teu sabor,

se por fim me queimarei

mais uma vez...




Canção do Amor à Capela


Quero cantar contigo a canção do amor,

mas as cordas do teu violão estão quebradas

e as do meu, desafinadas...


Mas, ainda que fosse à capela,

não tenho certeza se, neste momento,

conseguiríamos subir de tom,

ou talvez errássemos nos momentos graves.


Será que teríamos acordo quanto ao ritmo?


Deixo, contudo, aqui minha sugestão:


Cantemos, à capela, a canção do amor,

ao ritmo dos nossos corações,

ao tom dos nossos beijos.


Entreguemo-nos sem DÓ

ao brilho do SOL maior,

permita entrar em SI

as doces notas LÁ do AMOR.


Quanto aos desafinos...

o público há de perdoar...



Até João e Tom desafinaram,

e nem por isso deixaram de amar...



No Cais da Saudade


Os barcos que ancoram

na beirada do cais

trazem consigo os ais

dos que há muito choram.


Quem viu partir

seu amor para além-mar,

guardando beijos e vontade de amar,

nunca deixou a paixão esvair.


O mar lhes é agora

eterna morada,

o trem perdido

da última hora.


A notícia que desespera

aumenta a angústia

daquela que chora.



A tristeza, no cais,

está ancorada...


Vadio Coração


Quando te vejo

abre-se em mim um sorriso,

um sentimento preciso

que me acende o desejo.


Observo atento teus traços,

venero e adoro teu rosto;

quisera provar do teu gosto

e perder-me em teus abraços.


Se por azar ou por sorte,

ao te encontrar — sem razão —

dispara em mim, mais forte,


este vadio coração,

que ameaça levar-me à morte

por te querer de paixão.



Soneto da Ausência


Quando meus olhos vagueiam pelo vão

e minha alma cansada anda perdida,

são restos teus — tua ausência doída —

que me deixaram só com a desilusão.


Quando o silêncio invade a escuridão

e eu canto o amor com voz enternecida,

meus versos soam qual ferida aberta,

não são canção, mas sim açoite em vão.


Lembro os poemas que um dia escrevi,

embriagado em teu fulgor tão doce,

livre da cruz que agora me consumi...


Pensando em ti, esqueço o que sofri.

Lembrança tola, mas que bem me trouxe

o gosto amargo do amor que perdi.



Nos Braços Teus


Como as águas do rio correm para o mar,

assim meus lábios anseiam encontrar os teus.

Como o sol se põe lentamente,

desenhando na linha do horizonte

turvamente com as tintas da sofreguidão e do amor,

assim teus olhos traçam caminhos

dentro de mim — na despedida.


Teu falar é como as lindas canções

dos corais de anjos nos céus.

Teu nome é melodia,

e teus lábios, doces

como o mais puro mel.


Como anseio encontrar-te.

Como anseio conhecer-te.

Como meu coração grita em desespero,

e minh’alma rasga-se angustiada

por querer e não poder te tocar.


Sangra-me o coração,

e minhas mãos, manchadas com o sangue da solidão,

fazem desfalecer-me os sentidos.

Em desespero, desejo-te...

e a calmaria só reside nos braços teus.



Reino da Solidão


Tantas pedras no caminho

que eu nem sei mais o que fazer.

Foram-se as flores... vieram-me os espinhos,

ferindo-me a alma por você.


E eu fiquei na solidão,

nem sequer me restou o amor.

Só lembrei da ilusão,

palavras que eu ouvi, mas que você não falou.


E hoje, acompanha-me a tristeza

em uma mesa de um bar qualquer,

e da vida me restaram apenas as perdas

e, das perdas, o pesar.


Sou rei... rei sem nobreza.

Meu reino é a desilusão,

meu castelo é a tristeza,

meu trono... a solidão.




Teus Braços, Meu Lugar


Não quero Pasárgada de Manuel Bandeira,

nem a terra das palmeiras de Gonçalves Dias.

Não quero a Lisboa de Camões,

nem a Londres de Shakespeare.


Não há lugar no mundo em que eu encontre abrigo,

não há lugar que me inspire mais,

não há outra com quem eu queira repousar

que não seja você.


Não há outro lugar em que eu deseje estar

que não seja em teus braços.


Por vezes, é preciso soltar uma mão

para que possamos encontrar os próprios pés.

É preciso olhar pra frente,

pois ao lado não resta mais que uma sombra.


As lágrimas que redesenham minha face

são barradas por teu sorriso.


Não quero os lugares dos poetas,

não quero as cidades do passado,

se tudo o que preciso, enfim,

só encontro ao teu lado.



Sobre Amar, Ferir e Ser Forjado na Dor


É impressionante perceber que as pessoas que mais podem nos ferir são justamente aquelas que mais amamos. Isso porque a intensidade do afeto que nutrimos por alguém é diretamente proporcional à sua capacidade de atingir a nossa alma. Ora, se amamos alguém, é natural que dela menos esperemos uma traição, uma mágoa, ou mesmo que suas mãos possam lançar as pedras que nos machucam. Eis aí o grau de complexidade dessa questão.


Todos nós temos um “calcanhar de Aquiles” — um ponto fraco, visível ou não. Até o mais forte entre os homens carrega dentro de si angústias, mágoas, dores e fragilidades. Reconhecer isso é necessário, mas não podemos nos submeter a uma condição de subordinação a essas fraquezas. Elas não nos definem.


Não devemos temer. Não podemos permitir que o medo nos paralise — sobretudo o medo de amar. Quando isso acontece, o medo se torna o maior inimigo da felicidade, talvez o maior de todos.


Devemos assumir nossa identidade e lutar por ela. Não podemos nos reduzir aos nossos tropeços. Aprendi que é na fraqueza que podemos encontrar força. Mas não se trata de uma lição simples: dói. É na dor que somos provados, e ainda que não seja uma verdade absoluta, é nos erros que aprendemos e nas derrotas que nos forjamos como grandes vencedores.


Que saibamos, então, aprender com os erros e buscar sempre a verdade — inclusive, e sobretudo, a verdade sobre nós mesmos.



Entre Palavras Cruzadas


Sei que não são palavras que vão trazer você pra mim,

e não são promessas que mudarão o nosso fim.

Nossa história foi traçada como um rabisco em jornal,

e entre as palavras cruzadas…

ficou tudo desigual.


Se fui eu ou se foi você,

não sei como aconteceu.

Foi tentando me encontrar

que meu coração te perdeu.


A página da vida virou

e eu nem consegui perceber.

Por mais que eu tente escrever outras histórias...

eu não consigo te esquecer.


Tentei apagar seus traços com novos parágrafos,

mas seus sorrisos viraram reticências,

e os abraços, travessões suspensos no tempo,

esperando um ponto que nunca chegou.


Volto às linhas tortas da memória,

refaço mentalmente cada cena,

mas tudo já é sombra na história

de um amor que virou poema.


E mesmo que eu mude as letras,

o sentido ainda é você.

Porque entre palavras cruzadas,

só sobrou saudade pra preencher.



Os Pássaros e o Coração

Quando eu te perdi,

eu tentava me encontrar.

Mas não adiantou...

Por onde ando,

vejo o teu olhar.


Eu não entendi

por que tudo isso aconteceu.

Tentei fugir,

mas meu coração

não te esqueceu.


Para onde vão os pássaros

quando o inverno começar?

E para onde é que eu vou

se o meu coração não te encontrar?


Só agora sei:

és a dona do meu coração.

E os pássaros…

vão em busca de um novo verão.



Primeira Vez

A primeira vez que eu te vi,

meus lábios me traíram — sutis.

Faltaram-me as palavras,

e eu nem pude acreditar

que logo por ti fosse me apaixonar...


Atrapalhado, segurei tua mão,

e, gaguejando feito um bobão

(não sei bem por quê),

soltei: — Sempre fui apaixonado por você!


Você sorriu,

nada falou... e partiu.

Fiquei feito um tolo.

Acho que levei um bolo.


Talvez eu consiga, enfim,

rimar bebida com paixão —

quem sabe cachaça com coração...

E finalmente…

chegar ao fim!


Insônia

Não consegui dormir a madrugada passada.

Algo estranho — e talvez não tão incomum assim —

perturbava-me a alma.

Uma angústia tomava conta de meu ser,

e meus olhos, já não sei se vermelhos de cansaço

ou quem sabe das lágrimas retidas,

não conseguiam se juntar.


Ontem não consegui dormir,

porque você me roubou o sono,

você me roubou a paz.

Infiltrou-se em cada pensamento,

em cada suspiro.


Mas penso não ter muito o que fazer,

pois já não sei responder

se “a esperança é a última que morre”

ou se “é a primeira que mata”...


O certo é que me lancei no mais alto dos sonhos,

sem perceber, contudo,

que estava sem paraquedas.


Talvez eu caia no mar da desilusão,

talvez na firme concretude da realidade...

O certo é que vou cair...



O Que Procuro

O que todos procuram, senão a felicidade?

Contudo, a felicidade não é algo dado e acabado.

Não se encontra em uma loja especializada,

e não se entrega embalada em um pacote de presentes...


Muitos a buscam desesperadamente,

e, por incrível que pareça,

resolvem despejar todas as suas expectativas em um relacionamento.


Mas o que se procura em um relacionamento?

É justamente essa resposta

que irá definir quais os elementos necessários em sua vida

para alcançar a tão almejada felicidade...


Não posso falar pelos outros...

não posso generalizar — seria um erro.


Mas posso, enfim, falar de mim...


O que eu quero, ou o que eu penso — eis a questão.

Difícil questão...


Acredito que o primeiro passo,

e não diferente de nenhum outro,

é encontrar alguém...

alguém com quem pudesse compartilhar

as contradições de um dia — semanas, meses, anos...


Alguém que não cobrasse de mim

aquilo que eu não posso ser...


Alguém que não se propusesse

a ser aquilo que ela não é...


Não procuro um amor puro e imaculado.

Não procuro um amor egoísta.


Não procuro mais um tempo,

nem um espaço a preencher...


Procuro o infinito...

afinal, não me bastam as nuvens...

quero as estrelas.


E é do lado desse alguém

que eu quero, e que eu posso, ir além.


Alguém que não tenha medo de se entregar.


Que, em um dia comum,

não tenha medo de ir até a praia

e sentar na areia,

esperar que as ondas do mar cheguem bem perto e molhem os pés,

deixar o mar se aproximar,

enquanto o sol se esconde por detrás da linha do horizonte,

e o vento frio sutilmente propõe-nos um abraço...


Não quero simplesmente dar as mãos —

quero acorrentar as almas...


Quero você...



Romance da Hora Errada

Se for para pedir desculpas, então eu pedirei.

Mas não posso fazer nada se teu sorriso é cativante

como a alvorada dos pássaros ao amanhecer...


Se teu falar é manso e suave

como a mais linda canção...


Se teus olhos são como guias que brilham na escuridão,

mas que oferecem a quem olhar

o sério risco de se perder —

e se encontrar ao mesmo tempo...


Posso até pedir desculpas,

mas tudo isso não posso negar.


Tenho escrito sobre a dor,

mas agora meu coração se encheu de alegria

e me deu vontade de falar coisas lindas...


— Então corre e vai escrever um romance para a garota dos teus sonhos...

Estenda as mãos e seja o príncipe da hora errada,

realizando os sonhos na hora certa.


Diz então:

seríamos nós dois apenas escritores frustrados sentimentalmente?


Devo alertá-lo: não há garota, nem tão pouco os sonhos...

Apenas uma semente a germinar.

Germina e me parece fazer florescer flores vermelhas...

Vermelhas da cor do meu ideal,

vermelhas da cor da tua roupa,

vermelhas da cor da rosa que nasce em minha alma agora, ao te ver...


— Não transforme o ser dela em mero perfume...

Ele se desfaz com o passar do tempo,

mas a pessoa dele permanece.


Seu sentimento que esvaiu...

Saiba ser o jardineiro da vida dela,

e corra contra o pôr do sol,

seja o seu sol infinitamente...


Mas e se a linda flor se renegar?

E como um girassol, se esconder da noite,

esconder de mim sua face?


— Sutilmente?

Ainda mais quando o tempo dissolve?


E quem quer contar o tempo minuciosamente?


Mas é claro, ela não existe.

Você ainda tentou me avisar...


Mas ela, se existisse,

seria tão medrosa ao ponto de fugir do jardineiro da vida dela,

e correr contra o pôr do sol...?


Isto já não sei dizer.

Apenas vivo.


Afinal, o amor nunca me veio puro e tranquilo —

sempre veio com seus prós e contras.


Uma Linda História de Amor

Fizeram-me abrir um livro

em cuja capa estava escrito:

"Uma linda história de amor."


Fizeram-me ler as primeiras páginas...

e me fizeram acreditar nessa história...


Mas daí arrancaram o final...

e tudo se encerrou ao meio...


Depois colaram, no lugar do fim,

páginas de jornal

com notícias mal contadas,

drama, tragédia, comédia...


E então, o FIM.


Até tentei argumentar,

mas entenderam que eram apenas palavras...

E minhas palavras

jogaram no lixo...


Não perceberam que não eram simples palavras...

Estavam carregadas de sentimento,

do mais puro que possa haver.


Mas agora se juntaram aos restos,

às sobras,

a tudo quanto para ti é inválido —


E já não passam de simples

e medíocres palavras...


E então, o FIM.




Todo dia

Todo dia tem seus prós e contras.

Todo dia temos alegrias e tristezas,

dúvidas e convicções.

Nos orgulhamos e nos decepcionamos,

sorrimos e, por vezes, quase choramos.


Passeamos entre o céu e o inferno

com tal naturalidade

que chega a causar estranheza.


O vai e vem do dia é tão intenso e repetido

que acaba tornando-se rotina —

a rotina das surpresas.


Estranho?

Sim, é estranho.


Mas, se o viver não é assim, tão contraditório...

Se o viver já não for tão inimaginavelmente surpreendente...

Se ele mais se assemelhar

à monotonia e exatidão de uma uniformidade...


Então, me questiono:

qual a viabilidade do próprio viver?


Todo dia é assim —

o começo e o fim.



Entre os Dedos

Entre os dedos tenho a morte.

Entre os dedos tenho a dor.

Entre os dedos me escapa a vida —

lenta e sutil, se esvai no céu.


Entre meus dedos tenho a fumaça,

que, nebulosa, me esconde o pesar.

Entre meus dedos me escapam lembranças

de amores, aventuras, desamores, desventuras.


Trago em cada trago

o gosto amargo do passado,

das lembranças que me driblam a sensatez.


Nos pulmões carrego

a mancha do não ser.

Suspiros efêmeros negam-me a euforia

de querer ter entre os dedos —

você.


Em minha mesa

Em minha mesa,

de forma ordenadamente desorganizada,

tenho uma carteira de cigarros,

uma caixa de fósforos,

um copo verde,

um poema desalmado,

rabiscado entre as cinzas

de um amassado papel

que, por ousadia,

um dia chamaram de vida.



Meu condomínio

Se eu soubesse o que falar de mim,

então, certamente, eu diria...


Mas neste velho condomínio chamado "eu",

residem, há 24 anos:

um poeta,

um boêmio,

um militante socialista

e uma criança muito chata —

todos dividindo o mesmo espaço,

vivendo as mesmas coisas,

e dando as mesmas respostas incoerentes

para uma vida que, ao meu ver,

a cada dia se mostra ainda menos coerente...


Se eu soubesse o que falar,

então, com certeza, diria...


Mas os rascunhos das minhas lembranças foram incendiados.

Os quadros da infância? Todos rasgados.

O presente? Ah...

Esse foi aberto há muito tempo —

e nem o laço deixaram.


Mas não sou indecifrável.

Não mesmo.


Os outros...

Esses sim: imortais, fabulosos, geniais.

Eu?

Sou simples como uma vírgula.


É bem certo que, às vezes,

ninguém sabe onde me colocar.

Mas...

enfim... deixa pra lá.


Vende-se um Coração

Vende-se um coração em perfeito estado.

E, se o vendo, é por motivo de viagem.

São apenas 23 anos de uso...


Já apresentou alguns defeitos, é bem verdade.

Foi preciso trocar algumas peças...

Mas a garantia cobriu — era defeito de fábrica, sabe?


O pobre se apaixonava a cada instante,

derramava seu combustível precioso,

chamado amor, por todos os lados,

e depois o recolhia de forma inconsequente.

Não tinha freios,

vivia esbarrando em outros corações...

meros acidentes de percurso.


Mas, quanto a isso...

não se preocupe.

Está tudo resolvido.


Vendo, então, meu coração!

Pois, para onde vou,

não preciso de nenhum.


Mas não vendo pra qualquer uma, não...

Tem que cuidar dele.

Tem que saber tratar...


Ah!

Ia esquecendo do valor...


Vendo meu coração

por uma vida inteira de amor —

com muita dedicação,

e compreensão.



Espelho

Olho no espelho e vejo

nada mais que uma síntese mal feita

de uma história imperfeita...


Vejo um rosto,

mas desconheço qualquer traço ou espaço.

Refaço-me em pensamento,

mas já não mais reconheço

aquele velho moço —

que sorri de um jeito disfarçado,

como quem mente

e já não vê os resquícios primários

de um bom rapaz.


Digo-me não conhecer...

mas daí, tanto faz.


Estou cego.

Já não me vejo.

Não te vejo.

Contudo,

não me arranco o desejo de um beijo —

ainda que no queixo —

e então deixo assim estar.


Olho no espelho...

e não vejo nada.


Mas,

se olho dentro de mim...

então te vejo.




Reflexão no Silêncio

A única coisa que entendo

é que, da vida, ganhei apenas as perdas.

E que, por tempos, a busca de estar acompanhado

levou-me a uma constante solidão.


Assumo todos os percalços

deste caminho tortuoso que escolhi.

Não os nego, tampouco me esquivo

de minhas responsabilidades.


O fato é que agora me veio o silêncio —

e, como não poderia ser diferente,

no silêncio encontrei grandes verdades.


Verdades que nunca foram ditas.

E nem precisavam.

Pois estavam postas, expostas,

a uma realidade que só não fora vista antes

pela inconstância...


e pela própria cegueira

a que eu mesmo

me impus vaguear.



Por que choras, minh’alma?

Por que choras, minh’alma?

O que perturba o teu ser?

O que não te faz compreender

quão sublime é o viver?


Acalma-te! Por que gritas com delírio,

como mãe que perde o filho,

como virgem violentada ao ver sua candura

brutalmente roubada, sem nada poder fazer?


Sei que há muito não tens paz...

Também sei que, em teu seio, foram desenhadas,

em linhas turvas e mal rabiscadas,

fortes marcas de sofreguidão e dor.


Mas — ao acaso — não foi este o caminho

que tu mesmo escolheste?

Não foi esta estrada de espinhos que,

teimosamente, insististe em caminhar?


Por que agora, então, choras?

Se por ora somos imortais,

se o tempo já nos revolveu o semblante,

e há muito nos é inimigo — e não mais aliado...


Não deixes descair o aspecto.

E não chores! Pois, como espectro assombrante,

há de vir o escape —

e tu mesmo te perguntarás:


Por que razão um dia chorei?



Ócio

A penúria de entusiasmos matinais envolve meu corpo.

Não há sequer ânimo para mover as pálpebras dos meus olhos vermelhos.

Corpo deitado como cadáver...

Imóvel. Frígido. Desfalecido.


A única vontade que existe

é a de permanecer no silêncio indolente da madrugada.


Mas a madrugada já passou —

e o carrasco da manhã,

com chicoteadas de calor e luz,

me obriga a levantar.


Levanto. Olho em volta.

Sim, reconheço o lugar.


Toalha e vestes limpas nas mãos,

calço as sandálias, entro no banheiro.

Ligo o chuveiro.

A água cai.


Lava-me —

mas não leva de mim

a vontade de nada fazer.


Sento-me, então,

frente ao portal infernal

destruidor de neurônios,

que me rouba horas a fio

sem que isso, contudo, me incomode.


Vez ou outra,

o dedo insiste em buscar sorrisos ou atenção.

Move-se verticalmente,

apertando o botão — sem nada encontrar.


Intervalos rápidos

para digerir proteínas, carboidratos, gorduras, sais.

Então, devoto-me à árdua tarefa

de apreciar o vácuo.


Penso em guerra, sangue, flores,

corações, lutas...

E, finalmente, penso em paz.


Cansei-me.

E percebo que a melhor alternativa

é descansar novamente

minhas cansadas pálpebras.


Sem mais...

Durmo.




Saudades


Então, novamente, é saudade...

E mais uma vez, faço do teu nome

a mais linda canção

e o mais belo poema que já ouvi — e escrevi.


É saudade...

E então revivo, extasiado como em sonho,

todos os belos momentos que vivenciamos juntos —

ainda que, por ora, digas já não mais lembrar.


Relembro e revivo tudo dentro de mim.

Pois quando meu barco se fez em mil pedaços

no oceano das desilusões,

foram as lembranças que sustentaram minha sanidade.


Foi a concretude da real felicidade

que ao teu lado vivi — que me sustentou.

E é justamente neste pretérito que lanço as bases,

que busco esperanças para o futuro...


E se de tudo me foram levadas a fé e a esperança,

por sorte, me restou o amor —

sem o qual seria impossível

resgatar os outros dois.


Se, em atitude suicida, matei-me,

e sem querer, te usurpei a vida...

de forma egoísta, medíocre, mesquinha e cruel...

Saiba: bebi o amargo sangue

e, em sofreguidão, caminhei errante —

querendo, sem contudo poder,

te encontrar.



Dia Nublado

O dia se deu nublado...

Cinza... ávido.

Mal abri os olhos e já sabia:

os pássaros não estavam a gorjear,

as crianças não brincavam

nos jardins de suas casas.


Ainda que lá fora o sol ardesse,

e seu brilho cegasse,

e, na opulência de seu esplendor,

reinasse sobre os céus...


Ainda assim,

o dia se deu nublado.

Se fez nublado —

dentro de mim.


Tons cinzas e apagados...

Restos de cigarros no chão,

as marcas das lágrimas

que fizeram tempestade

em minha pálida face, noite adentro.


Lágrimas que descem como navalhas,

que cortam a alma,

rasgam esperança, fé, amor.

Lágrimas que castigam, gritam, bailam...

— e para virem,

basta abrir a comporta

que liga olhos e coração.


Sem mais...

o dia se fez nublado.

Mas foi nublado dentro de mim.



Lembrança do Último Adeus

Entre nós,

a diferença:

temperamento, temperatura,

altitude, atitudes,

estatura, estrutura.


(enquanto ainda ontem

comungávamos

idade & verdades

semelhantes,

e discorríamos

sobre a eternidade do amor)


Em nós, o antagonismo:

dos gostos,

gestos,

atos,

hábitos.

Palmeiras, mangueiras.

Franceses, holandeses.

Vazio, multidão.

Praças e becos.


Eu... leão

Coração alado, voando a 2.000 pés.

Discípulo de Marx, Lênin, Trotsky, Che.

Desorganizado, desastrado, irreverente, utópico.

Averso a shopping center,

às cúpulas da burguesia.

Estudante de Serviço Social, militante,

aprisionado ao discurso do meu ideal.


Tu... câncer

Sentimento à flor da pele.

Sublime, atraente — entregavas-te sem temer.

De Chiavenato a Ruy Moreira, Pedro Demo, Milton Santos.

Música, livros — e a inteligência,

que sempre me pareceu

sinônima do teu nome.

Espírito livre…

tanto, que 331.983,293 km²

parecem pequenos demais

para os largos passos dos teus pequenos pés.


Houve tempos, contudo,

em que passeávamos de mãos entrelaçadas.

Corações flechados faziam árvores sangrar.

Colecionávamos luas, abraços, canções.

Tínhamos nada — e, ao mesmo tempo, tudo.


Ouvíamos Hillsong, Morning Star,

e nossos beijos tinham gosto de pizza dobrada e coca-cola.

Entendíamos a linguagem dos lábios

com o dicionário dos olhos.

(Quanto a isso… também esqueceste?)


Naquele tempo,

(a diferença era apenas de segundos

nos ponteiros do relógio)

não havia distância.

A distância que nos separou

é maior que os polos terrestres.

Ideologias contrárias:

socialistas e capitalistas

do mesmo amor.

Ruas opostas,

contramão.

Bairros distantes.

Línguas diferentes.


E no entanto estamos aqui,

na mesma sala, com clima mórbido —

como se velássemos agora o amor

que, por desventura, disseste ter morrido.


Quisera eu ouvir os ambulantes novamente,

meio-dia, pedra quadrada e filosofal… (lembranças).


Mas abro os olhos e me deparo com a caneta

e tua voz a me dizer:



— Assina logo esse maldito papel.

segunda-feira, 9 de junho de 2025

📘 Lançamento do Livro: Políticas Públicas e Debates Contemporâneos – Contribuições Acadêmicas

 

📘 Lançamento do Livro: Políticas Públicas e Debates Contemporâneos – Contribuições Acadêmicas

📥 Clique aqui para baixar o livro completo (PDF)

É com grande satisfação que compartilho minha participação na obra “Políticas Públicas e Debates Contemporâneos: Contribuições Acadêmicas”, publicada em 2025 pela EDUFMA. Organizado por Frednan Bezerra dos Santos, José Renan Nunes de Oliveira e Silva, e Thayanny Lopes do Vale, o livro reúne reflexões fundamentais sobre os desafios atuais das políticas públicas brasileiras.

A obra conta com 246 páginas e está disponível gratuitamente em formato digital (ISBN: 978-65-5363-472-5).


📗 Minhas Contribuições na Obra:

📝 Capítulo 1:

"Concepções Teóricas sobre Burocracia: uma crítica marxista"
📎 Autores: Nikson Daniel Souza da Silva e Nilma Angélica dos Santos

Neste capítulo, apresentamos uma análise crítica das concepções clássicas de burocracia à luz do materialismo histórico-dialético. Recuperamos as contribuições de Karl Marx para compreender a burocracia não como mera técnica organizacional neutra, mas como um instrumento de dominação que serve aos interesses do capital. A burocracia é abordada como uma “excrescência parasitária”, parte do aparato de controle social sob o capitalismo — e sua superação é entendida como fundamental para a construção de uma sociedade emancipada.


📝 Capítulo 18:

"Influência das Condições Socioeconômicas do Alunado sobre a Acessibilidade Digital: a face desigual do ensino remoto emergencial em Serviço Social"
📎 Autores: Nilma Angélica dos Santos e Nikson Daniel Souza da Silva

Este artigo reflete sobre os impactos das condições materiais de estudantes de Serviço Social durante o ensino remoto emergencial (2020–2021), com base em dados de uma especialização em docência. Analisamos a percepção docente sobre desigualdades digitais e seus efeitos sobre o processo de aprendizagem, considerando as categorias: distanciamento, tecnologia, condições socioeconômicas e alienação. A abordagem metodológica é materialista-histórico-dialética, permitindo compreender a totalidade dos fatores envolvidos na precarização do ensino durante a pandemia.


🎯 Por que essa obra é importante?

Essa coletânea é uma ferramenta essencial para estudantes, professores, assistentes sociais e pesquisadores(as) comprometidos com a transformação da realidade social brasileira. Ela oferece análises críticas que ajudam a entender o cenário atual das políticas públicas, com ênfase nas contradições do capital, nas desigualdades estruturais e na necessidade de resistência.


📬 Convido você a ler, refletir e compartilhar!
Você já teve experiências com os temas abordados nesses capítulos? Comente abaixo ou envie suas impressões para [seu e-mail ou rede].

➡️ Continue acompanhando o blog Serviço Social de Pressão para mais publicações acadêmicas, análises e debates políticos!

sábado, 13 de julho de 2024

Nam beatitudo vestra

Nas profundezas da noite silenciosa, onde estrelas sussurram segredos, 
Há um abismo imenso, onde minha alma, fragmentada, se perde em ecos. 
Sou o vilão nas histórias que contam, sombras projetadas em paredes frias, 
Culpado aos olhos dos que não veem as lágrimas em minhas poesias.
Amar é um paradoxo, uma chama que queima e ilumina, 
Mas às vezes, amar é acender uma vela que cega, 

Cercado por reflexos distorcidos de um coração em ruínas, 
Renuncio ao êxtase de um sentimento puro, para salvar a alma dileta.
A dor é um rio, serpenteando silencioso através de campos de esperança, 
Carrega consigo pedaços de um sonho desfeito, cada gota uma lembrança. 
Mas há uma fortaleza em cada renúncia, um castelo erguido no sacrifício, 
Pois sei que protegê-la é meu afastamento, mesmo que à custa do meu paraíso.

Serei o guardião da sua paz, o escudo contra tempestades ocultas, 
Mesmo que isso signifique ser a tempestade nos seus olhos quando em vez. 
Meu amor, um segredo guardado em cofres de aço e dor, 
Atravesso desertos de incompreensão, para que tu nunca conheça esse sabor. 

Sou a sombra que dança na periferia da sua luz, 
A face oculta da lua, sacrificando brilho para que ela resplandeça. 


Se sou mau, então que seja, pois a bondade é medida pela mão que protege, 
E não pelos olhos que julgam sem entender as feridas e que tentando proteger, não se importam em causar outras.
Assim, caminho entre espinhos e flores murchas, 
Com o coração aflito, mas a consciência serena. 
Pois na renúncia do meu sentimento, encontro a verdadeira essência do amor, Protegê-la, mesmo que minha alma se quebre, é o meu eterno labor.

Perdido nas sombras, meu coração sangra, 
Ouso ainda amar, mesmo que não compreendam, 
Cicatrizes tão profundas, luz que a protege, minha única demanda. 
Sou a escuridão para sua luz brilhar, 
Amor que renuncia, para seu riso perpetuar, 
Nada mais importa, pois ao vê-la feliz, minha alma se acalma, 
Assim, sigo em silêncio, com a dor que me embala.

sábado, 29 de junho de 2024

Meus filhos

 Filhos, sois a luz que brilha em meus dias,

Estrelas que iluminam minhas noites,

Razão e amor que guiam minhas vias,

No peito, guardo vossas doces vozes.


Raphael, guerreiro forte e valente,

Tua coragem inspira meu coração,

Cada passo teu, um sonho presente,

Orgulho que floresce em cada ação.


Júlia Letícia, flor de delicadeza,

Teu sorriso é o sol que me aquece,

Tua alegria, um mar de pureza,

Em teus olhos, o mundo resplandece.


Filhos amados, minha eterna canção,

Em vós encontro força e devoção,

Que vossa vida seja sempre bela,

E que meu amor por vós, seja sentinela.


Nos momentos de alegria e de dor,

Estarei sempre ao vosso lado,

Serei porto seguro e guia,

Para que sigam sempre confiantes.


Raphael, tua força é minha coragem,

Júlia Letícia, tua ternura é meu farol,

Vocês são minha maior herança,

Meu amor eterno, meu maior tesouro.


Que o mundo vos abrace com bondade,

E que o amor vos guie em cada jornada,

Raphael e Júlia Letícia, meus filhos queridos,

Em vocês, encontro meu sentido e minha paz.


Que a vida vos reserve sorrisos e encantos,

E em cada desafio, encontrem a força,

Raphael, destemido, Júlia, suave encanto,

Unidos, formamos uma família grandiosa.


Nos momentos de alegria, celebraremos juntos,

Nas tempestades, serei abrigo e paz,

Filhos, meu amor por vós é imenso,

Eternamente cuidarei de vós, jamais sós.


Cresçam livres, fortes e felizes,

Seguindo os sonhos, construindo pontes,

Raphael e Júlia Letícia, amores da minha vida,

Minha inspiração, minha razão.

Te encontrei




TE ENCONTREI


No inesperado da vida, te encontrei,

Num encontro que o destino desenhou.

Minhas angústias, então, te confessei,

E em teu olhar, refúgio se mostrou.


Cada palavra tua, suave alívio,

Curando feridas que o tempo causou.

A cada desabafo, sentia o desvio,

Do peso que meu coração carregou.


Em ti, encontrei o bálsamo querido,

E no compartilhar, renasci.

Segredos e dores, em ti depositados,

Num laço de paz, eu me refiz.


Agora, sou inteiro, pois te achei,

Um abrigo em meio à tempestade.

No inesperado, a verdade encontrei,

E em ti, a mais doce amizade.

sábado, 20 de setembro de 2014

Pra você

Pra você não cantarei nenhuma canção,
Não declamarei nenhum verso,
ode, poesia, prosa, poema, nenhuma oração.

Não perderei meu precioso tempo
tentando encontrar alguma forma de agradar
de saciar tua alma a buscar contento

Pra você não escreverei nenhuma linha
pois as palavras não comportam o sentimento
as folhas de papel não aprisionariam a livre alma que é minha

Só não entendo porque me cobras as palavras escritas
já não são tão sublimes as ditas,
ou ainda excepcionais as experiências vividas?

Não escreverei. Definitivamente não escreverei
com caneta e tinta comum, em um pedaço de pepel,
mas prometo ditar e tatuar em tua alma, dia após dia
a mais linda canção, o mais lindo amor, a mais bela história que já inventei...


terça-feira, 9 de julho de 2013

Teus olhos

Teus olhos esquivos escondem displicentemente a penúria de uma alma aflita.
Em teu rosto os finos traços, como feitos por mão de habilidoso artesão,
congelam a imagem de um choro contido, uma angustia estancada para externar a firmeza no semblante.


És, por ora, a síntese de tuas escolhas, a antítese de teus desejos.

O peso de saturno é menor do que os de seus anéis,
alianças deixam marcas, não nos dedos, não... são marcas na alma...
por vezes impossíveis de apagar...

Teus olhos, contudo, não conseguem mentir...
tua alma salta cotidianamente por entre as brechas da cela que escolhestes.

teu espírito voa alto e quem sabe em um desses vôos

finalmente percebas que os brilhos de teus olhos não se podem perder jamais...
Pois dizem que os olhos são portais da alma...

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Eu sinto a sua falta



A noite avança, e o ponteiro do relógio já marca 23:00. 

Uma inquietude atormenta minha alma, tira minha calma, perturba meu ser. 

Um grito contido em minha garganta clama para dentro a palavra "saudade".

Saudade de alguém que, mesmo estando longe, estará sempre tão perto quanto possam imaginar, pois estará em meu coração e em meus pensamentos. 

Carregarei seu ser em cada sorriso, em cada olhar vago, na gargalhada solta ao lembrar de nós e nas lágrimas que, na tua ausência, são tão naturais quanto o pensamento a se perder entre as lembranças de um presente feliz. 

Desejo, então, ver teu sorriso para contemplar com os olhos aquilo que apenas meu coração vê.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Quero Molhar meu pés

Quero molhar meus pés...
Chegar até a praia, abrir os braços,
ser envolto pela brisa e respirar o cheiro do mar...
Quero um momento sozinho, mas com você ao meu lado..
um daqueles momentos em que nada precisa ser dito,
não precisa de abraço,
Quero perder meu olhar no horizonte,
pensar em tudo, lembrar de tudo, ouvir a canção do vento..
poder olhar ao lado, disfarçadamente, contemplar teu rosto,
juntar os meus lábios e fechar os olhos como quem sorri...
quero incabulado disfarçar que não te olhava...
Quero simplesmente molhar os pés,
não que estejam cansados da caminhada,
nem tão pouco doloridos em virtude das pedras no caminho,
mas porque o mar ao molhar os pés, rega a planta viva de esperança que há e mim,que sou eu...
Vem... o futuro é logo alí... se esconde atrás daquela linha chamada horizonte....
Vem segura a minha mão e vamos juntos....
Quero molhar meus pés...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Chuva em uma tarde de SOLidão

Hoje à tarde os céus choraram nossa saudade...
A água que caía na rua, formando pequenas poças, lavando o chão, regando plantas, deixando um clima de travesseiro e filme, dando sentido à velha preguiça do entardecer... molhava também o teto de minh'alma, trazendo à lembrança momentos compartilhados, histórias contadas, sorrisos lançados ao vento, pedras lançadas ao mar e, um sentimento sublime e inconteste que alimentava a lareira do coração.
Nesta tarde os céus choraram nossa saudade, mas abriu-se em meu peito incomparável riso... por um instante corri debaixo das gotas de chuva, o cabelo molhava, um sorriso de menino... pois hoje a tarde choveu e eu me molhei, me molhei na chuva, mas mais ainda nas lembranças que inundaram-me a alma, vontade de te ver e a certeza de querer-te sempre bem...

Noite Fria

Ontem, a noite estava fria, não direi contudo que necessariamente senti frio, poderia até utilizar-me com certo alarido poético destes termos, mas ontem foi diferente. A baixa temperatura exterior não alcançou meu coração, que era aquecido pelo mais sublime sentimento, o amor... A saudade inconteste das noites passadas, não houvera reduzido, contudo fora mesclada às vontades, tornando-se aprazível e para muito além da mera dor de querer e não ter.
Vontade de ver novamente teu sorriso, de viver mil aventuras em tempos improváveis, de estar ao teu lado e dentro dos meus braços, em muitos abraços, encontrares aconchego, vontade de lançar pedras no mar e sentir a brisa suave, mas não tão suave quanto o toque de tuas mãos. E deste modo olhando para a lua, pedi a Deus para ter você aqui perto de mim, ao meu lado, pois dentro de mim teu nome me é comum, pois minha alma incansalvel te chama por querer-te com ardor.
A lua prateada iluminava a esperança na janela do quarto, seu brilho parecia casar-se com o aroma das rosas que lentamente desabrochavam, lá fora o silêncio era violado com o uivo dos cães que pareciam saudadosos em ver dois seres a caminhar à hora avançada, enquanto isso em uma caixa guardada em meu peito latejava o coraçao ardendo inconsolavel de saudades.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Um dia

Um dia, ao olhar para trás, veremos
Que as lembranças são pequenas para tanto,
Tentaremos contar beijos e risos,
Mas será mais fácil contar estrelas,
Ou encontrar uma chuva de meteoros.

Nossos sorrisos serão tão profundos,
Que até o mais triste se alegrará.
O futuro no presente brilhará,
E o passado, pegadas na areia.

Meus olhos, ao escrever, se enchem,
Pois meus dedos e lábios obedecem
Ao coração que transborda de amor.

Quero te dizer que te amo, amo,
Prometo te fazer feliz, te amar,
Respeitar, honrar, sempre fiel,
E que, nas tristezas, sejamos
Um para o outro, consolo e paz.
Que a regra seja amar e ser feliz.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Diferente

Certa noite te falei que o que sentira por você era deveras diferente...
Você me pergunta então o porque razão eu julgo diferente... e eu respondo:
Sabe porque é diferente?
Porque é puro, porque não é egoísta.
Porque não faz mal, não causa dor
é diferente porque nossa luz é a lua e as estrelas
de nosso filme somos os protagonistas de uma história feliz
os quadros de nossa vida são de tinta viva, lagartas viram borboletas,
crianças sorriem, os cachorros alvoraçados latem...
é diferente porque nós não queremos que seja igual a nada que ja vivemos...

sábado, 26 de novembro de 2011

Quando...

Quando olho em teus olhos a única certeza que tenho 
é a de que irei me perder, que vaguearei silenciosamente 
por entre o brilho de teus olhos, 
por entre os mistérios de teu olhar... 


Quando  te fazes presente, então dissipada é toda tristeza,
não há espaço para a angustia nem tão pouco para a indiferença
Se estas ao meu lado então o sorriso é fácil,
e a alegria se alastra em uma conquista sem fim


Minha face meio boba tenta camuflar 
de forma infrutífera, todo o sentimento que por ora contenho
Minhas mãos teimosas assanham constantemente sua sombracelha e teu cabelo


O tempo parece Voar, e nem  o vejo passar
enquanto isso aproveito cada instante de tua presença
como se fossem os últimos


Mas quando ela parte, leva consigo meu coração,
deixa para trás a dor de quem a ama
matando de saudade, transbordando de paixão.











sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Apenas uma noite incomum

O mar
as ondas
um caranguejo morto
O vento
a brisa
um helicóptero no ar
e nós como peixes
a lutar contra a correnteza
querendo voltar para o que há de profundo
lançados entre as pedras dos conflitos
arrastados pelas ondas do destino
O mar
as ondas
um caranguejo morto
caranguejada...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Louco Apaixonado

Por detrás destes olhos cansados e aparentemente tristonhos
reside a vontade de arrancar mil sorrisos de teu lindo rosto
Por detrás deste sorriso meia boca, com aspecto tímido
habita uma alma escancarada que se alegra ao te ver

Não significa, isto que os gestos sejam levianos
e que os sentimentos sejam desnutridos ao ponto de não se expressarem
Esta é a mais pura expressão de respeito, pois se contenho em mim
aquilo que me dilacera é por conhecer tuas conveniências

Por detrás de mim se abriga um louco apaixonado
dentro de mim, guardo gritos de desespero
e já não posso enganar mais a ninguém

A Fera e a Borboleta

Há sentimentos que nascem como auroras em meio à escuridão. Chegam brandos, quase invisíveis, mas trazem consigo uma força que desmonta o qu...