segunda-feira, 27 de outubro de 2025

A Fera e a Borboleta

Há sentimentos que nascem como auroras em meio à escuridão. Chegam brandos, quase invisíveis, mas trazem consigo uma força que desmonta o que parecia eterno. O amor é assim, ao mesmo tempo semente e tempestade, salvação e ruína.

A fera vivia há tanto tempo sozinha que já não se lembrava de quando o coração havia se tornado pedra. A solidão deixara de ser castigo e passara a ser abrigo. Não havia som, nem cor, nem calor, apenas o silêncio confortável do que é imutável. Tudo ao redor era gelo, e o gelo não dói, não pulsa, não exige.

Em seus olhos, o mundo parecia pequeno, repetido, previsível. Nenhum perfume, nenhum rastro, nenhum olhar atravessava suas defesas. Ela se acostumou à ausência de espelhos, à ausência de testemunhas, à ausência de si. Era uma fera calma, calma porque morta por dentro.

Mas um dia, quando o tempo parecia suspenso, uma borboleta entrou em sua caverna de inverno. Era tão frágil que parecia feita de ar. Suas asas traziam um pó avermelhado, quase invisível, e batiam devagar, como se desenhassem o som de um suspiro, como um fio de cabelo cacheado a voar pelo céu. A fera observou aquilo sem entender. Como algo tão pequeno podia mover o ar em volta, podia perturbar tanto o silêncio?

A borboleta não temia o frio. Pousou em seu ombro com a inocência das coisas que não sabem o risco que correm. E naquele toque breve, algo se moveu. A fera sentiu o coração latejar, um som esquecido, abafado por camadas de invernos. No início, pensou que fosse dor. Depois percebeu: era calor.

O gelo começou a derreter devagar. Primeiro, em pequenas gotas. Depois, em rios inteiros. As paredes que o protegiam começaram a ceder, e a fera sentiu o medo que vem junto com a vida. Amar, descobriu, era perder o controle, era abrir o corpo para o desconhecido, era aceitar a própria desproteção.

A borboleta voava em torno dele, e o coração, antes duro, agora batia em descompasso com o mundo. A fera quis guardá-la. Quis tê-la sempre perto, longe das tempestades, longe de tudo o que pudesse machucá-la. Mas como prender aquilo que nasceu para o voo? Como proteger o que só vive se for livre? Como querer para si, algo que nunca foi seu?

Foi então que a borboleta falou.
- Por que vive escondido no frio?, perguntou, pousando suavemente sobre seu ombro.
- Aqui é seguro, respondeu a fera. No frio, nada muda. Nada dói.
- Nada vive, também, disse ela, e seu riso soou como o farfalhar de asas no ar.

Aquelas palavras atravessaram o peito da fera como uma lâmina quente. Olhou para o chão e viu o gelo começar a rachar sob seus pés.

Nos dias seguintes, a borboleta voltou. E cada vez que aparecia, o ar parecia diferente. A fera começou a ouvir sons que antes não ouvia, o murmúrio da água derretendo, o sussurro do vento, o próprio coração tentando lembrar como se batia.

- Você não teme o frio?, perguntou ele um dia.
O frio é só o que ainda não foi tocado pelo sol, respondeu ela. E tudo pode ser tocado, até você.

A fera abaixou os olhos. Eu posso te destruir.
Pode, disse a borboleta, mas só se esquecer de que tem um coração.

Foi quando ele entendeu que algo dentro dele havia mudado para sempre. A cada batida de asas, o coração parecia acordar mais um pouco. Sentia calor, medo, ternura. Sentia-se vivo.

Um dia, a fera disse, com voz trêmula, - Fique comigo. Aqui será seguro.
A borboleta pousou em seu peito, bem sobre o coração que voltava a pulsar, e respondeu, Eu não nasci para ficar. O amor não é prisão. É voo.

A fera sentiu o medo. O mesmo medo de quem aprende a amar e, ao mesmo tempo, entende que amar é permitir a ausência.
Se você for embora, eu morro, confessou ele.
Se eu ficar, você nunca viverá, respondeu ela suavemente.

E antes que a fera pudesse dizer qualquer palavra, a borboleta levantou voo. O ar se encheu de brilho, e o calor dentro dele tornou-se insuportável. O gelo derreteu de vez, e o coração, livre e humano, queimava.

A fera tombou no chão, sentindo pela primeira e última vez o que era estar viva. O fogo que a borboleta acendeu não se apagou, apenas transformou-se em luz.

Enquanto o corpo da fera repousava, a borboleta ainda voava ao redor, como se dançasse em despedida.
- Obrigado, sussurrou ele, antes que o silêncio o tomasse, por me ensinar o que é sentir.

E então ela se afastou, sumindo entre os raios de um sol que nascia.

Existem sentimentos que nascem como tempestade e terminam como abismo. São bonitos de ver, mas perigosos de viver. O amor é um deles. Arrebata as amarras, liberta o que estava preso, mas nos despe de toda defesa. E é nesse desamparo que descobrimos o que é realmente viver, ainda que viver, às vezes, seja morrer um pouco.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Trilogia do eu

Fiquei aqui, no eco das escolhas,

tentando costurar o tempo rasgado,

descobrindo que dor também é linguagem,

e que o silêncio, às vezes, foi o que mais gritou.


Não te culpo pelas quedas,

elas ensinaram o chão a ter nome.

Havia beleza mesmo quando doía.


Tu choraste como quem perde um país,

como se o peito fosse um território sitiado.

Mas amor não é pátria, é travessia,

e nem todo porto promete volta.


Não implores pelo que foi,

guarda apenas o cheiro do instante,

porque até o adeus tem perfume.


Te vi acolher o que vinha e ia,

como se teu peito fosse abrigo do mundo.

Mas há horas em que o abrigo precisa fechar as janelas,

deixar que a tempestade passe sem testemunhas.

Tu só querias aprender a descansar em ti.


Houve dores que voltaram como velhas conhecidas,

sabiam o endereço, o tom da tua voz.

Tu as recebeste como quem serve café,

achando que hospitalidade era cura.

Cura é quando aprendes a não esperar que te entendam.


As palavras que não disseste

pesavam nos lábios como pedras presas no fundo do rio.

Guardaste demais, talvez por medo de ferir,

talvez de ser ferido.

O não-dito também fere,

e o silêncio às vezes mata antes da lâmina.




Vi-te correr por rostos alheios,


implorando migalhas de pertença.


Eras jardim, mas só conhecias as sombras.


Amar é verbo reflexivo,


quem se esquece no espelho se perde no abraço.




Agora que já fui e já voltei,


que morri em tantas versões de mim,


posso te dizer com ternura,


valeu.


Não pelo brilho,


mas pela coragem de atravessar a escuridão sem mapa.


Tudo o que doeu também te escreveu,


e é nisso que te tornaste:


poema, cicatriz e caminho.




Olho para mim e encontro rugas de riso


e sombras de noites em claro.


Não me reconheço totalmente,


e ainda assim sei que sou eu.


Hoje estou inteiro, mesmo fragmentado,


aprendendo que estar é mais que existir.




Cada fôlego parece carregar histórias antigas


que insistem em sussurrar.


Sinto o cansaço e o medo,


mas também a força que habita meus ossos.


Estou aqui, respirando como quem insiste em não fugir


daquilo que ainda é meu caminho.




Meu corpo lembra, mesmo sem eu querer,


as quedas e os abraços perdidos.


Hoje estou nele, atento e dócil,


como quem aprende que sentir é um dever,


e que não há vergonha em ter cicatrizes.




O que não digo ecoa alto dentro de mim


como um rio lento que nunca seca.


Hoje estou ouvindo o que antes ignorava,


aprendendo que o silêncio também é voz


e que ele tem muito a ensinar sobre quem sou.




Sinto o medo, sempre me visitando,


mas a coragem insiste em permanecer.


Hoje estou nele,


não como quem domina, mas como quem caminha ao lado,


como quem entende que viver é atravessar trevas com passos pequenos.




Hoje estou me tocando com ternura,


oferecendo a mim o que tanto busquei nos outros.


Aprendo que o amor próprio não é egoísmo,


é sobrevivência, é semente que floresce no chão seco


e que só eu posso regar.




Hoje estou aqui, e isso é suficiente.


Não sei o que virá depois,


mas sei que cada instante é uma folha em branco


e que posso escrever com cuidado,


com dor, com riso, com desejo.


Hoje estou, e isso já é poesia.




Penso no que ainda não sou,


nas sementes que germinam silenciosas dentro de mim.


Serei flor que se recusa a murchar,


mesmo quando o sol falhar.


Serei raiz que segura o chão,


mesmo quando o vento quiser levar tudo.




Serei quem fala sem pedir licença,


quem grita quando a injustiça aperta,


quem canta mesmo com a garganta seca.


Serei voz que não se cala,


ecoando pelos corredores do tempo


como aviso e lembrança do que é viver.




Serei corpo que se ama inteiro,


que se respeita e se acolhe nas curvas e cicatrizes.


Aprenderei a habitar a minha carne


sem medo nem pressa,


como quem descobre que a liberdade começa aqui.




Serei coração que cabe o mundo,


que entende que doar não é perder,


que sentir dor não é fraqueza,


que amar sem amarras é coragem.


Serei peito aberto como janela,


onde entra vento, luz e esperança.




Serei passos que deixam marca,


não por vaidade, mas por presença.


Aprenderei a caminhar sem pressa,


a respeitar trilhas antigas,


e a escrever minhas pegadas no chão


como quem sabe que tudo que fiz e farei é legado.




Serei silêncio que não teme o eco,


que escuta sem julgar, que entende sem pressa.


Aprenderei que algumas respostas vêm devagar


e que é no espaço entre palavras


que o tempo me ensina a ser inteiro.




Serei futuro, mas também presente,


um ponto de luz e sombra,


um livro ainda por escrever,


um poema que se descobre a cada dia.


E quando me olhar, enfim,


reconhecerei tudo que vivi, tudo que estou e tudo que serei.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Do Avesso

Há dias em que o peito não cabe no corpo,

em que o sangue corre de trás pra frente,

e a alma, essa fera indomável,

rasga o próprio ventre

pra ver se encontra sentido no caos.


Há dias em que amar é guerra,

e respirar é um ato de coragem.

Em que o espelho devolve

um estranho com teus olhos,

um naufrágio com teu nome,

um silêncio com tua voz.


Mas há também, nas ruínas do sentir,

uma centelha, obscura, mas viva,

que pulsa feito tambor de guerra,

gritando: “ainda estou aqui.”


E quando o mundo te virar do avesso,

deixa.

Deixa o chão te conhecer pelo nome,

deixa o abismo te chamar de irmão,

deixa o vento fazer morada

nos vãos das tuas costelas.


Porque só quem desce até o fundo

sabe o peso e o brilho da própria escuridão.

E só quem foi despido de si

descobre a força de renascer sem pele.


Então ergue-te, se como antes, luta!

se com o algo novo, selvagem e inteiro, luta!

Só não se acostuma com a inespida dor, pois 

És feito o trovão que aprendeu com a dor

a cantar.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A Casa Sem Janelas

Maria ficou viúva em 2 de dezembro de 1996. A partir dali, nunca mais conseguiu seguir o curso natural da vida. Tentou, é verdade. Permitiu-se alguns encontros, envolveu-se em relações que pareciam promessa, mas sempre se revelavam engano. Amou de forma inconsequente, como quem busca apagar um vazio com outro vazio. E, de tanto se desiludir, acabou fazendo um pacto estranho: resolveu casar-se novamente, desta vez com a solidão.

Aos poucos, o tempo foi lhe endurecendo o olhar, embrutecendo os gestos, talhando seu rosto com marcas de desalento. O mesmo tempo que, implacável, transformava também sua casa.

As janelas — símbolos de abertura, de troca, de horizonte — foram sendo condenadas uma a uma. As mais largas, fechadas com tijolos. As menores, primeiro substituídas por vidro, depois por tábuas, até que também desapareceram. A claridade foi sendo expulsa. O ar rarefeito. O mundo deixou de entrar.

No meio dessa penumbra, Maria vivia uma rotina imutável, quase ritualística. Acordava sempre às quatro da manhã, tomava seu café forte e amargo, lavava a roupa, preparava o almoço. Saía para o comércio, comprava sempre as mesmas coisas, voltava para preparar seus drinks. Frequentava o mesmo restaurante, a mesma igreja, a mesma amiga, a mesma costureira. Qualquer pequeno desvio desse roteiro era para ela um sacrilégio. Sua vida tornara-se um círculo fechado, sem surpresas, sem brechas, sem janelas.

Seu corpo, assim como sua casa, também guardava cicatrizes. Numa queda, quebrou o braço, ficando com sequelas para o resto da vida — movimentos limitados, dores que se tornaram parte da rotina. Em outro episódio, por pouco não perdeu a própria existência; escapou por um fio, como se o destino ainda não tivesse decidido encerrar a sua história. Essas marcas eram como tijolos dentro dela, reforçando um muro que ninguém via, mas que ela carregava.

No fim, a casa de Maria tornou-se reflexo exato de sua alma: escura, murada, sem janelas. Não havia mais frestas por onde a vida pudesse espiar. Restava apenas o peso do silêncio, um abrigo que não aquecia, um corpo de paredes que era também um túmulo em vida.

Ela, que um dia tentara resistir, agora se confundia com aquela morada: uma mulher e uma casa, ambas fechadas sobre si mesmas, sem portas para o futuro, sem janelas para o mundo.

E, no fundo, talvez fosse essa sua escolha final — não mais se deixar atravessar pela claridade



terça-feira, 23 de setembro de 2025

Inclinação

 Do vigésimo andar, ele via a ponte todos os dias. Era quase um quadro permanente, moldurado pela janela da sala: o rio lento, os carros apressados, o arco de concreto atravessando o horizonte. No começo, a ponte era apenas parte do cenário – tão comum quanto o café da manhã ou o som dos elevadores. Mas, com o tempo, seus olhos treinados pelo hábito começaram a notar algo diferente.

Havia uma leveza torta ali. Um desnível quase imperceptível, um centímetro a mais de sombra no lado esquerdo. Intrigado, passou a observar com mais atenção. Marcava, a cada manhã, o ângulo imaginário que separava o equilíbrio da ruína. Comprou uma trena, um nível, fez cálculos em folhas soltas. E, mês a mês, confirmava: a ponte inclinava-se.

Preocupado, escreveu cartas para o jornal, mandou e-mails para a prefeitura, telefonou para programas de rádio. Explicava com precisão: “Se nada for feito, essa ponte cairá. Está claro. É questão de tempo.” Os poucos que o ouviam respondiam com silêncio ou riso. Alguns vizinhos comentavam nos corredores: “Coitado, anda obcecado”. Mas ele seguia firme, convencido de que um dia todos lhe dariam razão.

Até que, numa manhã de setembro, o jornal trouxe a manchete inesperada: “Prédio residencial desaba na madrugada”. Foi só então que o país descobriu, com espanto, que não era a ponte que cedia. Era o edifício dele.

A inclinação, afinal, estava em seu próprio chão.


Nikson Daniel Souza da Silva 

terça-feira, 9 de setembro de 2025

O mundo não vai parar só porque você está mal. A vida continua, impiedosa, indiferente às suas lágrimas ou ao peso que você carrega no peito. As caras feias, os deboches, as críticas veladas, nada disso vai colocar comida na mesa ou pagar as suas contas. É preciso ser forte, erguer a cabeça e seguir em frente, mesmo quando tudo em você pede para parar.

Mas ser forte não significa que não doa. A força não anula a dor, apenas a envolve em silêncio e disciplina. Ser resiliente não é sinônimo de indiferença. O que machuca, machuca. O que fere, fere. O que cansa, cansa. Há batalhas invisíveis que ninguém vê, e, mesmo assim, você precisa travá-las todos os dias.

Reconhecer a dor não te torna fraco. Pelo contrário, admitir que dói e, ainda assim, continuar caminhando é a prova mais autêntica de coragem. Porque resistir, apesar do peso, é um ato de grandeza que só quem vive sabe o quanto custa.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

A última vez..

 A rua debaixo era mais que rua, era o nosso estádio, nosso palco e, de certa forma, nossa escola de vida. O chão quente, o pó vermelho grudando no suor, os chinelos servindo de trave e a bola que nunca descansava. Cada fim de tarde parecia igual, mas nenhum foi repetido. Um deles, sem sabermos, foi o último.

Lembro de Guegué, sempre chegando enrolado na toalha de mesa. Ríamos, mas sabíamos o motivo: a mãe, na tentativa de segurar o menino em casa, deixava-o nu enquanto trabalhava. E lá estava ele, driblando o mundo com o pano arrastando pelo chão, até largar a toalha e se juntar à bagunça.

Eu tinha minhas artimanhas também. Mandado para comprar pão, sumia por duas horas. O pão ficava esquecido na esquina, enquanto eu corria atrás da bola. Para despistar bronca, escondia uma muda de roupa na casa de dona Daluz, mãe de Roger, Walex, Wescley e Wendel. Jogava, suava, trocava de roupa e voltava para casa como se nada tivesse acontecido.

Genilson era o menino do me dá aqui. Pedia tudo: a bola, a bicicleta, a vez. Era parte do jogo, parte da nossa paciência treinada na marra. Breu e os irmãos eram só molecagem, inventavam confusão, davam risada alta, transformavam cada detalhe em motivo para caçoar.

E havia Marcos e Diogo, os irmãos descolados. Tocavam violão na porta de casa, malhavam improvisando pesos, e eram sempre a referência de estilo e atitude. Quando o futebol parava, era para a música começar. Reuníamo-nos ali, desafinados e felizes, como se o mundo inteiro coubesse em três acordes e algumas risadas.

Anderson, com sua calma firme, muitas vezes no gol, e Guegué, com sua gargalhada solta, já não voltaram. O mar os levou cedo, numa daquelas viradas da vida que a gente nunca entende. Mas mesmo isso, mesmo a dor da falta, foi apenas um episódio dentro do fluxo que seguiu.

Porque o que realmente mudou não foi apenas a ausência deles, mas o tempo. De repente, as idas à rua debaixo deram lugar ao estudo, à faculdade, ao trabalho, aos namoros, às obrigações. O cotidiano, sem nos pedir licença, virou outro. Um dia, simplesmente, a bola parou de rolar. O pão deixou de ser desculpa. O violão foi guardado. E ninguém disse: foi a última vez.

É isso que o tempo faz: vai desmontando o cenário, peça por peça, até que a gente se dá conta de que não há mais partida marcada.

Hoje, se fecho os olhos, ainda vejo a toalha de mesa de Guegué esvoaçando, ouço as cordas do violão de Marcos e Diogo, sinto o pó da rua grudando no suor. O jogo não acabou: ele apenas ficou suspenso na memória, eterno naquilo que nunca mais será vivido.

No fundo, talvez seja assim: cada instante é também uma despedida disfarçada. E só a lembrança, teimosa, insiste em manter aceso o que fomos, meninos correndo atrás de uma bola na rua debaixo, sem imaginar que a vida, sorrateira, já preparava o apito final.

A Fera e a Borboleta

Há sentimentos que nascem como auroras em meio à escuridão. Chegam brandos, quase invisíveis, mas trazem consigo uma força que desmonta o qu...