Fiquei aqui, no eco das escolhas,
tentando costurar o tempo rasgado,
descobrindo que dor também é linguagem,
e que o silêncio, às vezes, foi o que mais gritou.
Não te culpo pelas quedas,
elas ensinaram o chão a ter nome.
Havia beleza mesmo quando doía.
Tu choraste como quem perde um país,
como se o peito fosse um território sitiado.
Mas amor não é pátria, é travessia,
e nem todo porto promete volta.
Não implores pelo que foi,
guarda apenas o cheiro do instante,
porque até o adeus tem perfume.
Te vi acolher o que vinha e ia,
como se teu peito fosse abrigo do mundo.
Mas há horas em que o abrigo precisa fechar as janelas,
deixar que a tempestade passe sem testemunhas.
Tu só querias aprender a descansar em ti.
Houve dores que voltaram como velhas conhecidas,
sabiam o endereço, o tom da tua voz.
Tu as recebeste como quem serve café,
achando que hospitalidade era cura.
Cura é quando aprendes a não esperar que te entendam.
As palavras que não disseste
pesavam nos lábios como pedras presas no fundo do rio.
Guardaste demais, talvez por medo de ferir,
talvez de ser ferido.
O não-dito também fere,
e o silêncio às vezes mata antes da lâmina.
Vi-te correr por rostos alheios,
implorando migalhas de pertença.
Eras jardim, mas só conhecias as sombras.
Amar é verbo reflexivo,
quem se esquece no espelho se perde no abraço.
Agora que já fui e já voltei,
que morri em tantas versões de mim,
posso te dizer com ternura,
valeu.
Não pelo brilho,
mas pela coragem de atravessar a escuridão sem mapa.
Tudo o que doeu também te escreveu,
e é nisso que te tornaste:
poema, cicatriz e caminho.
Olho para mim e encontro rugas de riso
e sombras de noites em claro.
Não me reconheço totalmente,
e ainda assim sei que sou eu.
Hoje estou inteiro, mesmo fragmentado,
aprendendo que estar é mais que existir.
Cada fôlego parece carregar histórias antigas
que insistem em sussurrar.
Sinto o cansaço e o medo,
mas também a força que habita meus ossos.
Estou aqui, respirando como quem insiste em não fugir
daquilo que ainda é meu caminho.
Meu corpo lembra, mesmo sem eu querer,
as quedas e os abraços perdidos.
Hoje estou nele, atento e dócil,
como quem aprende que sentir é um dever,
e que não há vergonha em ter cicatrizes.
O que não digo ecoa alto dentro de mim
como um rio lento que nunca seca.
Hoje estou ouvindo o que antes ignorava,
aprendendo que o silêncio também é voz
e que ele tem muito a ensinar sobre quem sou.
Sinto o medo, sempre me visitando,
mas a coragem insiste em permanecer.
Hoje estou nele,
não como quem domina, mas como quem caminha ao lado,
como quem entende que viver é atravessar trevas com passos pequenos.
Hoje estou me tocando com ternura,
oferecendo a mim o que tanto busquei nos outros.
Aprendo que o amor próprio não é egoísmo,
é sobrevivência, é semente que floresce no chão seco
e que só eu posso regar.
Hoje estou aqui, e isso é suficiente.
Não sei o que virá depois,
mas sei que cada instante é uma folha em branco
e que posso escrever com cuidado,
com dor, com riso, com desejo.
Hoje estou, e isso já é poesia.
Penso no que ainda não sou,
nas sementes que germinam silenciosas dentro de mim.
Serei flor que se recusa a murchar,
mesmo quando o sol falhar.
Serei raiz que segura o chão,
mesmo quando o vento quiser levar tudo.
Serei quem fala sem pedir licença,
quem grita quando a injustiça aperta,
quem canta mesmo com a garganta seca.
Serei voz que não se cala,
ecoando pelos corredores do tempo
como aviso e lembrança do que é viver.
Serei corpo que se ama inteiro,
que se respeita e se acolhe nas curvas e cicatrizes.
Aprenderei a habitar a minha carne
sem medo nem pressa,
como quem descobre que a liberdade começa aqui.
Serei coração que cabe o mundo,
que entende que doar não é perder,
que sentir dor não é fraqueza,
que amar sem amarras é coragem.
Serei peito aberto como janela,
onde entra vento, luz e esperança.
Serei passos que deixam marca,
não por vaidade, mas por presença.
Aprenderei a caminhar sem pressa,
a respeitar trilhas antigas,
e a escrever minhas pegadas no chão
como quem sabe que tudo que fiz e farei é legado.
Serei silêncio que não teme o eco,
que escuta sem julgar, que entende sem pressa.
Aprenderei que algumas respostas vêm devagar
e que é no espaço entre palavras
que o tempo me ensina a ser inteiro.
Serei futuro, mas também presente,
um ponto de luz e sombra,
um livro ainda por escrever,
um poema que se descobre a cada dia.
E quando me olhar, enfim,
reconhecerei tudo que vivi, tudo que estou e tudo que serei.
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